Somos o sertão nordestino alagado

Vidas Secas, Os Sertões, Grande Sertão: a desgraça de nossa cultura sendo cultuada. Um romance estéril para o progresso. Por último, Polígono das Secas, devastando a literatura regionalista, onde afirma, com toda sua lucidez, que na literatura a vida insignificante precisa morrer.
Os sertanejos se absorvem na psicose coletiva. Vivem na clandestinidade. São como macacos adestrados, longe do anfiteatro circular. São fugitivos. Fogem da educação, pois são preguiçosos para o pensar. Preferem ser escravos da aclimatação e do trabalho que dispensa o mental; assim como fugiram da colonização, fogem da política atual, da economia e do progresso. São marginais. São raças inferiores, como disse o Eça: “A miscigenação é a falta de identidade”. Ignorantes. O Sertão é a parte podre do enfermo, do Brasil já condenado à bestialidade. No sertão, de tanta desgraça em sua volta, o sofrimento é amansado pela fé,
É amparado pela credulidade.
Forró, Mandacaru, Acarajé, Suvaco de Cobra, Lula, Xinxim de Galinha, Ferreira Gullar, Esterilidade, Padre Cícero, Inanição, Macaxeira, Poeira, Desgraça, Antônio Conselheiro, Ignorância, Incultura, fanatismo. “Terra ignota, em que se aventura um rio problemático ou idealização de corda de serras”. Quanto mais nordeste, pior. O nordestino é uma sub-raça, uma mistura de três raças: portuguesa, africana ( escravo ) e a ameríndia ( os nativos locais ).
O sertanejo é mesmo um homem fatigado, justamente pela preguiça intelectual. Um estrangeiro. Um alienado. Um autônomo. O Sertão é o homizio, como disse Euclídes da Cunha. “Estamos condenados à civilização”.
E foi do agreste nordestino que nasceu Lula. Um mensageiro nordestino enviado por Deus: o mesmo que o “esqueceu” na desgraça da seca, jogado no inabitável, com teu “horizonte invariável”, com teu aspecto primitivo. Lula é um messias. É venerado como um santo pelo atraso. Lula é um nordestino que migrou da desgraça, de teu reduto, e virou lenda. Trocou Caetés por São Bernardo e, com teu jeito simplório, conquistou a ignorância, concretizando-a, alastrando-a e provando que o Brasil é a eira do nordeste. Não seria Lula o próprio Antônio Conselheiro da atualidade?
Em Os Sertões, a fé contra a incredulidade é inevitável. A raça, o tempo todo, sendo questionada. “A mestiçagem extremada é um retrocesso”. O “mestiço é mesmo um histérico” ( veja os eleitores do Lula! ). É um “intruso”.
O incesto, por vezes, foi esquecido em os Sertões, mas como acontece na vida dos animais irracionais, é comum entre os sertanejos uma prima casar com o primo, o tio com a sobrinha. O Sertão é o resto. É o contraste sendo devorado pelo igualitarismo de uma colônia miserável. Pobreza. É a nulidade no plural.
É perceptível que Lula seja mesmo um campeão de votos dentro dessa nossa democracia, que hoje, adoentada, dentro de sua lamúria, clama uma ditadura qualquer. O nordestino é o retrato do brasileiro no estrangeiro. Somos os sertanejos do mundo. Lula somos nós.
Somos, todos nós, o sertão debaixo de chuva.
Escrito por Leonardo Cattoni às 15h17
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