Havia umas idéias flutuando na minha cabeça, mas elas não aterrissavam. Rabisquei no Word por diversas vezes, mas sempre achava trágico, como se eu causasse um acidente, em uma aeronave, com milhões de pessoas queridas a bordo. Até que, inesperadamente, me veio à tona, depois de um comentário de uma conhecida sobre a irmã, um texto sem ensaio algum, completando o rabisco, que tomou corpo.
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Se mulher gostasse de política como gosta de novela, e os homens, como gostam de futebol, o Brasil de hoje estaria muito menos brasileiro.
Eu não gosto de futebol, e nem de novelas. Sobrou-me o tema deste. Mas, diga-se de passagem, o que vem acontecendo neste governo é uma novela sem fim, que irrita os telespectadores, com tua morosidade, sem revelações, cheia de embromações. Os petistas andavam driblando o sensato e marcando gol. Não havia zagueiros, nem goleiros. O Brasil parecia com a França: a mesma que venceu a gente, na última Copa, sem convencer ninguém. Eu adoro metáforas ordinárias, como as do meu presidente! E houve o inesperado para este Brasil de petistas: o segundo turno. O juiz apitou e marcou pênalti. Não sei em que lado está o meu time. Não sei se o Lula está no gol ou se vai chutar. A eleição ficou divertida. Os escândalos se valorizaram. O sensato, parece, vigorou. Torço contra o Lula. Torço contra os petistas. Os torcedores petistas vaiam os escândalos porque sabem, no fundo, que são “passes errados de teus zagueiros”. Choram pelos erros medíocres que os atacantes cometem, como se o jogo, os jogadores, tudo, já estivessem comprado. Como se o placar estivesse à mercê da manipulação de algum “Freud” sem psicanálise. Como se o mundo fosse cego, como se o Brasil fosse nordeste. O único que pode derrotar o Lula é o Lula. O PT marcou gol contra.
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Desde os meus dezesseis anos que voto. Ou seja, faz dez anos que sou eleitor. Já fui dez vezes votar com uma preguiça dominical, com ressacas medonhas. Vou sempre cabisbaixo, como se o meu voto fosse contribuir com as enfermidades que atolam o meu país, tendo a ciência da minha inutilidade. Minha animação, raquítica, me deixa atônito diante à urna, diante de tantos botões, de tantas enganações, de tantos erros, ali, fáceis de cometer. Nunca tive sorte com os meus candidatos à Presidência. Eles não sabem convencer. Eles não fizeram um curso de Artes Cênicas. Os meus candidatos não juram a utopia para um país já utópico aos olhos do estrangeiro. Não aprenderam a ser atores.
Nunca elegi nenhum presidente. Sendo assim, ninguém pode me culpar deste atraso, que infesta à terra dos tupiniquins. Não sou culpado de nada. Como não serei nos próximos quatro anos, se Lula for reeleito. Não me sinto um cidadão brasileiro.
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Os petistas têm vergonha de votar no Lula. Muitos já não o defendem em mesas de bares. Não têm argumentos. O único argumento é falar que todos são iguais, que Alckmin é como o Lula, que nesse negócio de política, a ética, realmente, não conta. Ou ficam calados, procurando outro assunto, enquanto roem as unhas da mão. Os eleitores do Lula votam no escuro, na caladinha, e depois, com um sorriso anêmico, vêm nos jurar, como juram amor-eterno os namorados infiéis, depois de uma traição, que não votaram no cara. O voto petista é clandestino.
Se Lula vencer eu rasgo o meu RG e conservo o meu Passaporte.
Escrito por Leonardo Cattoni às 00h13
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