Eu me leio é nocê
Cada letra que os olhos limpam, vai sujando a cabeça. Ruindade de quem escreve assim!, procê bagunçar pensamento com palavras arrumadas. Na leitura há uma busca de si mesmo em outro ser.
Textos fugidos. Queria cercá-los, pra modo fazer feito fazem com os bichos que voam. Touro bravo, laçado por palavras; letras sujas de vermelho, lembrando bicho-bravo de nosso rumo.
Por que vendo isso assim, tão visto, tão escancarado, eu nunca havia iluminado, antes, em mim, esta concretização que, aqui, nasce atrasada? Cegueira tem visão, senão mata o breu de claridade. A coisa é tão óbvia que desprezamos a certeza certa; eclipse esconde pra modo admirarmos o escondido. Coisa, que antes era oculta, pula em nossa frente duma forma mais convicta, como pedra quicando, batendo, na cara da água, pra afundar, lá longe, no esquecimento. Rio vomita chuva é em cima do mar, Sertão.
Eu pari, mas foi alguém-de-menos-eu quem criou.
Pensamento, às vezes, brinca de ser ele mesmo; noutras, finge ser enganação. Pensamento também gagueja, fala, canta, mas fica mudo pra mais de um.
Nenhuma idéia é nova. As idéias são recicláveis. Nenhum pensamento desvirgina consciência. Tem um par de perna, de braço e a cabeça maior do que o resto, como o resto.
Não sei até onde vai a realidade. Nunca lambi limite por ser teimoso. Não sei que gosto tem. Nem viver eternamente eu busco, Senhor. Morte cansa de esperar e mata a gente de vida. Desconheço tudo que diz ser ele mesmo e abraço o ponto-final do texto de Deus. O entendimento é alimentado pelo ponto que pari reticências em nossa cuca. Querer demais é ter de menos, assim dizem muitos alguém por aí.
Nome é palavra órfã: palavra sem dono. Não se pode dar contorno somente com o nome. Nomear alguém é provar o resto. Minha conhecida, que tem nome esdrúxulo, disse que se sente única por nunca ter visto por aí um nome como o dela. Eu, sem farejar, e achando vários Leonardos, que não são eu, crio a certeza que eu sou mesmo único de desigual.
Essa minha amiga anda em sintonia comigo. É o pensamento carimbando as palavras faladas no nosso espaço, no nosso arredor. É gangorra de aprovação; é um lendo si no outro. Ela me entende e eu, versa. A gente briga, mas briga é o desentendimento do nosso entendimento. Mas a gente fica mais é calado, que é pra poupar desperdício.
Na boca de um peixe, pra nós, só cabe isca. Na do rato cabe o queijo. Não dou bom dia ao cavalo porque a língua chicoteia é o meu dorso.
Eu leio todo o relido. Eu penso o pensado. Eu escrevo pra modo ocê ler o que seu pensamento despensou.
Escrito por Leonardo Cattoni às 22h12
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