Cartas na Mesa: Texto no Blog
Sábado, 29 de abril. Estou na minha sala, quando entra Manoel Lobato, sem bater na porta, e me joga um livro na mesa. "Este é teu! Eu não faço isso todo dia. É um livro que escrevi. Se quiser ler, leia; caso contrário, jogue fora". Que maçada, Manoel!
Abri Cartas na Mesa e li a dedicatória; carinhosa, por sinal. Na Nota do Editor eu li os apreciadores da escrita de Manoel Lobato. Dentre eles Guimarães Rosa, Aurélio Buarque. Guimarães Rosa diz: "É contista de limpa marca, autêntica qualidade. Seus contos são ótimos, coisa pirandelliana".
Lobato me diz que foi o único, da sua época, que sobreviveu. "Nelson Rodrigues, Rosa e muitos outros se foram; eu sobrei pra ser velho e apreciar a morte, embora eu fosse o mais novo dos já falecidos".
O livro é fabuloso. Livro de memórias que não fugirá de minha memória.
Meio que Bukowskiano, o livro é engraçado. Lobato é homem lapidado, Bukowski não. Há melancolia na alma das palavras arquitetadas pelo escritor, onde o mesmo, recorrendo ao ponto final, desmorona tudo, confundindo o entendimento, ofegante, do leitor. Descubro a essência e caio na armadilha: li o livro numa sentada.
Eu sigo Manoel Lobato faz tempo. Ele escreve crônica diária num jornal.
Sempre há alguém, de carne e osso, próximo-e-distante, ao mesmo tempo, que, demasiadamente, admiramos. O meu alguém é Manoel Lobato. Eu achava que fosse o Ziraldo, por sempre trocar, uma vez ou outra, palavras com ele na Rua da Bahia, tendo a ciência que o mesmo havia escrito O Menino Maluquinho: livro que li na infância e, acredite, ajudou-me a descobrir que lágrimas caíam sem minha pele arder; minha alma sangrou como se fosse um machucado recém-nascido; não havia mertholate que cessasse o incômodo. Eu tinha cinco anos quando li Ziraldo.
Mas Ziraldo ficou bobo, sei lá. Creio que o PT e as parvoíces de Lula fundiram (pra não dizer fuderam) a cabeça do cara.
Manoel Lobato é pra mim o que Fernando Sabino foi para a minha mãe. Sabino trocava cartas com minha mãe; eu troco palavras ditas com Lobato.
Há uma parte no livro que Lobato descreve o vestibular de Direito prestado na Faculdade de Catete, no Rio. Em 1953, já em outra faculdade, havia prova oral.
"Quando chegou a minha vez, o Dr. Clóvis Rabello me mandou ler um texto do Eça de Queirós em a Relíquia: 'Sim, eu devia identificar-me tanto com as causas eclesiásticas e submergi-me nelas de tal sorte, que a Titi, pouco a pouco, não pudesse distinguir-me claramente desse conjunto rançoso de cruzes, imagens, ripanços, opas, tochas, bentinhos, palmitos, andores, que era para ela a religião e o céu.'
O examinador me falou num tom superior:
- Artista, há dois quês aí. O quê pode ser sujeito?
- Na própria pergunta o quê é sujeito de pode.
-Vá embora, artista.
Os colegas ficaram sem entender. Um deles me disse: 'Você falou besteira. Levou zero.' Eu entendi que o meu professor havia me entendido. E entendeu. Mas este meu colega, o entendido mesmo, não havia entendido".
Cartas na Mesa deu o chão para os meus pés saltarem; eclodiu novidades no Leonardo repetitivo. Eu reli o livro de Lobato. Se eu reler de novo estarei lendo. Ler pela segunda vez não é reler; e ler um Clássico pela primeira vez é, acredite, reler. Coisas de Ítalo Calvino, não de Leo Nardo. Culpa, no final das contas, não-pagas, de Manoel Lobato.
Escrito por Leonardo Cattoni às 00h32
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