O Brazil daqui é Brasil
Já vejo o Brasil de Brazil. Percebo a miséria se despedindo com a alegria no colo. Há saudade e há incerteza.
Já não sou eu. Já não tem mais graça. Já não posso reclamar como dantes.
Tenho vergonha do meu íntimo. Já me vejo comprando um jornal, de manhã, sem a política sem-vergonha, debaixo de um céu escuro, cantarolando “eu não tenho amor, eu não sou daqui; cadê meu sol dourado, e cadê as coisas do meu país”. Lembro da coluna do Lessa; não digo qual; não é do teu interesse, creio eu.
Sempre minto porque a verdade, meu caro, não convence. E nem adianta dizer que é mentira.
Há, por fim, uma força antagônica à felicidade.
Transformei-me num Charles de Gaulle, onde as Tristezas do mundo pousam. A Felicidade, com suas rasantes, me desorienta, câmbio!
Felicidade e tristeza, em doses iguais. Doce amargo no paladar do meu inteiro.
Marcelo chegou da Itália na terça e me telefonou. Conquanto Marcelo casasse com uma portuguesa, ele me disse que as italianas são os bicho, além de legais. Creio que ele queria colher um riso do meu rosto. Eu ri e perguntei como é que é bicho em italiano.
A portuguesa gostou do Baianas porque, segundo ela, faz lembrar carnaval. Ela acha o Brazil bonito. Eu, eu já não acho nada.
Acho que vou dormir.
Escrito por Leonardo Cattoni às 00h08
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Eu, por eu mesmo, Tropicália de uma figa
A definição que alguns têm ao meu respeito é engraçada. Sou o panfleto que sangra promoções no centro da cidade. Não pareço ser uma coisa crível.
Prefiro os que me carimbam de boçal. Mancham-me de estúpido, grosso. Melhor louco, pra ser sincero. Parafraseando Glauber Rocha: “Estão confundindo a minha loucura com a minha lucidez”. A minha consciência é límpida e a lucidez em atividade, assustadora, ó! Talvez a destreza mental esteja associada à loucura; talvez...
A minha parvoíce está exposta; impressa na capa. A falácia da embalagem. Eu sou a casca do ovo choco. Ou a gema, sadia, mergulhada na clara que se trancou na casca rachada.
Eu nunca tive sucesso de traduzir, em palavras, o inquilino do meu íntimo. Não pede ao cego para colaborar no retrato falado, senhor!
Nunca coloco pra fora aquilo que, por dentro, me incomoda. Não que eu não queira; eu simplesmente não consigo; e quando eu arrisco, sai distorcido. Ensinaram-me a cavar, mas não me arrumaram uma pá. Não estou atrás de conchas.
Também nunca me deslumbrei com nada, embora fizesse esforço para expor o que por dentro tremia. Há ânsia, mas não vomito p-a-l-a-v-r-a-s, e, muito das vezes, os gestos são poupados involuntariamente. Dizem que isso causa câncer. Que o cigarro e a angustia fiquem com o ringue! Eu estou aqui, como um troféu, esperando pelo vencedor. Os urubus, desde já, voam sobre mim.
A minha percepção das coisas é muda. Nunca divulguei os achismos que me sufocavam. Eu queria uma trégua da bestialidade. Eu aprendi que o silêncio é a melhor opção, embora a conseqüência como, por exemplo, a subestimação, por culpa mesmo de teu menosprezo pelo óbvio, seja incômoda.
Sou o quadro negro daquele corredor claro. Sou o que tu queres que eu seja; sou qualquer coisa. O quadro é todo preto porque o branco é algo além das pálpebras que dormem. Eu gosto de fechar os olhos para enxergar melhor. Eu gosto de assinar no espaço. E lá vem a loucura, em minha direção, da boca do parvo. Por falar em loucura, eu gosto do que Torquato Neto disse, quando estava internado em um sanatório: “Eles não deixam ninguém ficar em paz aqui dentro. São bestas. Não deixam a gente cortar a carne com faca mas dão gilete pra se fazer a barba”. O mundo é besta, meu caro; aliás, o mundo é um sanatório sem doutores e sem medicamentos. Uma dose de morte, fulano?
Sublinharam, em minha vida, a contestação. Eu vim para ser do contra. Sou o amolador da faca cega, ou vice-versa, que a tua ferida suicida – ou com ânsia de viver – deseja. Eu vim para cutucar. Eu vim para acordar; para atrapalhar o sono alheio; embora não consiga; como tudo que tento, abraçado com o amor. “Tenho como ideal destruir o mundo para, nesse mesmo gesto, fazer o parto de um novo” - De José Castello para Torquato Neto. Lindo, lindo! Não sou Caetano pós-moderno; prefiro ‘Superbacana’!
Nunca gostei de futebol, por exemplo. Havia certos temas masculinos que me enojavam. O mundo queria que eu participasse da única regra, me dando a camisa 10. Eu quero ser livre dessa mediocridade avassaladora. Viado foi o que escrevi sobre Dom Casmurro – quem escreve ‘veado’ é viado ( M. Fernandes ) – na prova de literatura, e o zero foi a resposta da censura. Censura a verdade, o óbvio. Eu quero ver todos livres – apesar de que ninguém se considera prisioneiro. Eu quero que os tabus se transformem em temas de filmes hollywoodianos. Eu quero amar e ser amado na mesma intensidade de uma proporção única daquela fração inteira. Eu quero é não querer, pra ser sincero.
(continuação abaixo)...
Escrito por Leonardo Cattoni às 16h36
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Eu já morri várias vezes. A literatura sempre me violentou. Godard dizia que ao terminar de ler um livro, jogava-se pela janela – Verdade Tropical. Eu sempre morro quando leio algo novo.
Eu sempre morro quando d-escrevo o que está maculado em mim. Mas eu quero me exportar para bem longe. Eu espero pela morte, porque, como diz Paulo Diniz, ela é certa. Quero responder quem sou em uma linha. Depende do destino, não?!
Eu só sei que há uma diferença abissal entre alguém que diz ser ele mesmo e eu, que assume ser ninguém. Não levo ninguém a sério, começando, desde o início, por mim Eu sempre fiz piada disso, quando, meio Torquato, dizia: “Sendo eu, proprietário de uma magnífica inteligência, aprendi desde cedo a rir da desgraça alheia, como se isso fosse um poema muito doloroso para você” (Ainda ontem citei este num buteco, embriagado de caretice). Eu quero ficar quieto. Eu quero um cobertor e um travesseiro; um cigarro e a tua ausência também. Grato!
Chamam-me de pretensioso, muito das vezes; de chato, por conseqüência. “As idéias pretensiosas, mesmo quando ridículas, são motor e sinal de energia criadora” (Caetano Veloso). Procure algo. Talvez eu seja o tiro certeiro que nasceu acidentalmente. Ou aquilo que empacou na culatra. Há sobreviventes.
“Uma palavra: Deus e o Diabo”. Alguém castrou a minha iniciativa. Eu driblei os inimigos e fiz gol contra. Eu assino tudo que digo e mando descontar. Há um peso em mim. A falta de percepção do mundo me deixa triste; a bestialidade concreta me enfraquece. Lutar contra o mundo e pagar os impostos em dia: é isso que faço [lembrei de A Idade da Razão, de Sartre]. Marcelle, Marcelle, tua parideira de merda!
E as mulheres? E as gurias? Alô, Procópio! Alô, Diniz! Alô, Andréia que não me lê! Alô, alô, meu lado mulher!
Se eu amo todas, eu amo todas de costas; eu amo a mim por incompleto. E a Sullen, grande conhecida, grande blogueira, continua escrevendo. Continua sendo manequim do espelho. Leia ela também, cambada. Ela, sempre me chamando de senhor. Até nos textos eu sou ‘senhor Cattoni’ Pra que a distância, Suellen? : http://ausderfremde.blogspot.com/2006/04/primavera-pra-qu-te-quero.html
Suellen é a menina do frio que virou mulher, e não picolé. Riu de mim, fulano? É que do engraçado em diante a tristeza começa. Escancara os dentes nesta cara pálida, pessoa.
Alguém me disse que eu tenho uma conduta anômala. Eu tenho um blog, uma bala e uma cabeça. Coloque-a na frente que eu disparo.
Escrito por Leonardo Cattoni às 16h35
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