Domingo de qualquer Metrópole
Levantei do banco, mastigando chiclete. Avistei, de longe, dois negrinhos, um tanto canhestros, de mãos dadas a uma senhora. Cocei a cabeça. Arremessei no passeio público a goma insípida. Li as manchetes que coloriam a vitrine da banca enquanto apalpava o bolso da camisa na procura do maço magro. Preso a uma corrente, o isqueiro dava cambalhota e tossia faíscas. Dei uns tapas na barriga do bicho e ele, como troco, cuspiu em meus cílios.
Sentei novamente no banco da praça. Folheei o jornal enquanto despejava fumaça.
Ao meu lado uma criança brincava. Sorrindo pra mim, fez sinal de jóia com o polegar miúdo. Enganei que não vi e mirei nas letras pálidas do jornal, enxergando uma ‘branquidão’ que clareava a minha insensibilidade charlatanesca.
A praça estava imunda de folhas e crianças. Os mendigos adornam o Centro e as bordas da vida e esquecem da gente, do lado de cá. Gosto das bordas das pizzas à moda e das com massa nua. Lembro que não sei viver. Não há miséria tão esparramada como no Centro, logo penso, com fome.
Os carrinhos de bebê com as babás, de branco, desfilam no asfalto limpo da pista de Cooper. Beija-Flores fazem compras no jardim. E o sol ilumina o palanque para o domingo discursar sua melancolia decorada.
Um cão de aparência desagradável corre para o meu lado. Xereta o ar, com seus olhinhos de prazer. Sacode o rabo e, com a língua morta, urina no pé da árvore.
O alvoroço da praça me causa desconforto. A alegria passa a ter um significado nauseabundo em todo meu íntimo. Almejo a solidão com uma cara desalentada.
Eu mantinha uma relação de hostilidade mútua com todo o colégio tradicional da Contorno. Recordo por culpa da semelhança que há entre a mulher que caminha e a professora de Geografia. Tudo Ava Gardner no estrangeiro da tela. Continuo sendo hostil no recreio da vida. Uma água de coco gelada, senhor, para curar a minha ressaca nostálgica. A saudade rondava em meus pensamentos recônditos. Sempre mantive um relacionamento estreito com o passado.
Sinto o cheiro que vem do aglomerado. Uma tarde olorosa da raça dominical. Avisto no horizonte os prédios luxuosos que escondem meio sol. A cumplicidade da cidade inóspita em que os prédios luxuosos habitam dramaticamente, com suas varandas desertas amamentando os miseráveis de desejos capitalistas. A violência da miséria deixa marca indelével na beleza que anuncia fome de alegria.
E a Ava Gardner, com sua presença mais que cênica, completa mais uma volta. Suarenta, ela me presenteia uma olhadela de gato assustado. Minha presença pétrea berra Xô!.
Compro um picolé de abacaxi. Há uma sede em mim de esmola que não me amola. Jogo o resto, quase inteiro, na grama e corro a mão adoçada na bermuda negra.
Observo dois idosos se abraçando. Cancelo o filme com o jornal aberto em minha cara.
Lembro-me, pela milésima vez, no mesmo instante, dela. Música arranhada que esperneia dengo. Ela parece dar corpo à dor que em mim passeia. Sinto, em estado embrionário, a possibilidade infinita de a gente dar errado. Ela, corista, ri e me envenena. A eloqüência em maltratá-la é a resposta. Sou um escorpião cercado de estranhos.
A repugnância me desnorteia, às vezes. Peço a Deus um pouco de pudor. Ó, seu homem, eu também tenho sangue.
Escrito por Leonardo Cattoni às 00h28
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