Meu nome é Gal!


Um jovem de cabelos brancos e rugas tatuadas no corpo

Nunca, em meu íntimo, cogitei chegar aos oitenta anos. Os meus vinte e seis já pesam em minhas costas. Ou dificulto a leveza das vinte e seis toneladas que espremem a minha juventude já falecida. Um peso medonho. Sinto-me um velho no corpo de um jovem. Eu deveria ser o garoto propaganda de todos os cosméticos que prometem rejuvenescimento. Imagino minha cara, com um sorriso estampado, naquele outdoor da zona sul, segurando aquele patrocinador da Gisele Bündchen. Os meus cem anos ludibriados por um produto americano, caro e desejado. Ainda não industrializaram um produto para o rejuvenescimento da alma. Não há mocidade em cápsulas, sendo vendida em farmácias de manipulações. Eu queria dez cápsulas e um copo entornando água.

 

Converso com o escritor Manoel Lobato. Ele trata de dente na clínica em que trabalho. Sempre o coloco na minha sala e fecho a porta, como se, com isso, partisse para um mundo estrangeiro entre as quatro paredes, junto com um ET. Esqueço do meu trabalho. Tiro, discretamente, o telefone do gancho. Desvio-me das minhas obrigações cotidianas. Miro aquela História usando óculos, sentado em minha frente.

 

Lobato é o meu avesso; é um jovem trancado num corpo desenhado de rugas. Lobato é muito mais lúcido do que eu. Lobato fica quieto e, acredite, responde a todas as minhas perguntas com bom humor. Lobato é direto. Diz que tem curiosidade em morrer. Diz que é agnóstico. Diz que escreve diariamente no jornal pela grana que recebe. Conta que foi muito pobre na juventude; que a única riqueza que tinha era a juventude nua e escancarada. Conta do Rio de Janeiro e das deliciosas cariocas douradas. Fala das farmácias de que era proprietário na década de 60; dos balcões o cercando do jornalismo; fazendo de seu amor pela comunicação, um prisioneiro. Fala de seus oitenta e poucos anos como se fossem dezoito. Fala do cansaço de viver. Diz que antes de viver deveria ter um teste, um ensaio para a gente não fazer tanta cagada. “Vivemos sem ter, antes, o direito de ensaiar viver”. Lobato tem receio de chegar aos cem anos, e jura não ter simpatia pelo suicídio. Diz que a vida, em demasia, enfada. Lobato vive uma angustia. Diz que o filho roubou o seu lugar. "Jesus era o filho que se apresentou ao mundo como Pai, sendo o pioneiro dessa bagunça hierárquica". Diz que a velhice é o esconderijo dos remorsos.

Digo que sabia de tudo por sempre lê-lo. Ele ri, como se pensasse: "Que menino panaca, este Leonardo!".

Ele diz que escreverá sobre o dente que trata. Diz que tudo é motivo para escrever. Diz que inventar é cansativo. Eu aproveito e pergunto se não teria um jeitinho de fazer uma publicidade da minha clínica em sua coluna. Lobato balança, horizontalmente, a cabeça. Eu fico vermelho e dou uma risada para enterrar, como faz o cachorro com sua merda, a minha inconveniência.

 

Lobato não enxerga muito bem. Ele é cego de um olho e tem, no outro, 1/8 da visão, apenas. Toda vez que Lobato vai embora eu o atravesso na avenida da clínica. No primeiro instante ele recusa, agradecendo a minha disposição em ajudar. Depois, vendo que não vou desistir, ele segura em meu ombro e diz que o cego é ele e, portanto, eu não preciso segurar nele; é ele quem deve segurar em mim. Transformo-me em seu cão-guia. Depois de tê-lo atravessado eu volto e fico, do outro lado, vendo aquele homem desaparecer, em passos lentos, com seu corpo corcovado, sabe-se lá pensando em quê, no horizonte.

 

Lobato é o marketing da Lucidez que não vende. A Ciência deveria estudá-lo. Não parece ter oitenta e poucos anos. Manipula a sua máquina de escrever, como se fosse uma criança com o seu brinquedo preferido. O resultado de suas brincadeiras são textos que alimentam a minha fome pela transparência de uma heresia.

Se não fosse a escrita, o Lobato, talvez, estivesse morto. Os textos incentivam Lobato a viver. A escrita diária é o Prozac de Lobato. Lobato não morre antes de descrever o seu próprio enterro, se despedindo, sem ensaio, com uma pitada de humor, da sua última coluna de hoje. "Amanhã, caro leitor, eu vou curtir a morte. Está tudo ensaiado".

 

Leia Manoel Lobato: http://www.otempo.com.br/colunistas/lerMateria/?idMateria=35078



Escrito por Leonardo Cattoni às 00h48
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