Meu nome é Gal!


A Casa dos Budas Ditosos

Abro o jornal e vejo Fernanda Torres sentada, com um lindo par de pernas; pernas nuas, brancas e magras. Óculos escuros, com um copo de uísque ao lado. “A Casa dos Budas Ditosos”, em todo tamanho, tomando espaço daquela fotografia quase pornográfica. Dirão que estou exagerando. Não, eu não estou. Talvez um delírio. Uma lembrança nascendo prematuramente, inesperadamente. A fantasia se transformando em realidade absoluta. A nudez escancarada é que broxa.

 

Bem, eu continuo não gostando de teatro. Mas era um livro tentando sobreviver no palco. Resolvi, na última hora, ir, sozinho, ao Palácio das Artes. Não sei se lembrei mais da Mazar do que da Procópio e aquele sonho irrealizável concretizado, tão próximo. Lembrei das mensagens noturnas, no meu celular, da Lacour, dizendo que estava num ensaio.

É, a Mazar era a mais lembrada. Fui por culpa do livro, da baiana que o Ubaldo jura ter existido. Fui por ser um monólogo, por ser a Fernanda Torres. Fui, na verdade, por Mazar. Mazar era a culpada. Mazar jogou a semente na terra fértil.

 

De repente vejo a Torres entrando, de salto alto, caminhando em direção à mesa; o holofote queimando a realidade. O tempo presente fica remoto. A realidade em câmara lenta. Explode um desejo de gritar.

Vejo a baiana de Ubaldo ali, presente e concreta. Escuto a voz de Ubaldo. Lembro de Mazar. Fico emocionado. Olho para a Torres em meu delírio. Vejo a baiana mitológica. Procuro espaço na cadeira. Estico as pernas. Ejaculo sem ereção. Procuro me encaixar.

O texto machista na boca de uma feminista. Os eus por todos os lados.

 

Na minha frente, um casal. Ria de tudo, como se o livro não existisse. Como se tudo aquilo fosse inesperado. Como se a surpresa reinasse. Era a santidade da incultura na cultura de boutique estampado no ingresso caro. Era a arte inócua sendo comprada por um preço insignificante. A Norma Lúcia, para o casal, nasceu ali, entre beijos e abraços; entre sarros e taras; entre o escuro e o palco; entre o holofote e a pornografia. Para o casal estrangeiro a Torres tinha um sotaque esquisito. Para mim, a Torres não existia. De tão boa atriz, a Torres se enterrou, virou órfã; fez da Montenegro, global, surreal. Era a baiana, com a cabeça prestes a explodir, contando o passado tão presente, que eu via. Era a tristeza maquiada de alegria fazendo da mulher estéril uma parideira de remorsos mortos; uma culpada inconfessa. Era o crime de matricídio sendo julgado por um câncer, no meio das sacanagens inundadas de gozos. Era a solidão camuflada pelo ménage à trois. Ela se condói timidamente.

 

Eu, a cada palavra dita pela Fernanda Torres – baiana - delirava. Era como voltar à cama; com o livro fazendo eclipse na luz do teto. Era a Mazar fugindo das quatro paredes e me acompanhando ao teatro. Era a carta apócrifa de Mazar se tornando autêntica. Eram as letras miúdas sendo ocultadas. Era a maravilhosa anomalia me rendendo.

 

No final, quando foi despida a verdade, deixando explícito que tudo, sem exceção, era apenas fuder, eu levantei e aplaudi. Eu saí do teatro com uma sensação indescritível. Parei no João, pedi uma cerveja e me senti mortal outra vez. No João eu queria comer a filha da Montenegro: a linda e sensual Fernanda Torres. Voltei a ser eu mesmo; voltei a ser a baiana travestida; voltei a ser um oligofrênico enrustido. Deixarei tudo dormir em estado de romance.



Escrito por Leonardo Cattoni às 02h21
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