Namorei meninas lindas. Só a beleza me deixava submerso ao amor. Achava que mulheres deveriam, por obrigação, ser apenas belas. Se eu estivesse atrás de inteligência, eu deveria buscar o homossexualismo. Mas nunca tive tendência ao homossexualismo. E se tivesse alguma fêmea com a inteligência masculina, ela não seria bela. “A intelectualidade é em si mesma um modo de exagero e destrói a harmonia de qualquer rosto”. ( Oscar Wilde )
Mesclava sexo com amor e achava que o amor sobressaía, como a pimenta na salada de alface sem sal. Jabor disse uma verdade: “Sexo e amor nunca gozam juntos”. Beleza sempre coloca a mesa; Vinicius escreveu e eu assinei, assumindo as conseqüências de um impopular no meio dessa ditadura sem fim. Eu ejaculava espermatozóides com o sexo. Com o amor, eu ejaculava recrudescências de orgasmos órfãos de atos sexuais.
Só a beleza feminina para fazer de minha virilidade uma coisa sã, inteira, e não uma deficiência. Só a beleza feminina para me dar frêmitos de amor, fazer-me sonhar, como se a pele de porcelana, o cabelo longo e liso, a boca Brigitte-Bardotneana, o nariz arrebitado, o corpo de uma Leila Diniz fossem as únicas coisas a alimentarem os desejos de um Romeu. Só as Dulcineias Quixoteanas deveriam ser desejadas. Sempre desejei as Deusas, as intocáveis pelas minhas mãos punheteiras. A impossibilidade de tê-las me fascinava. Eu gostava da beleza inconquistável. Eu queria ter as mulheres mais lindas, as de capa de revista, para me darem gozos infinitos. Mas elas são inatingíveis. As muito belas são escravas de sua própria beleza. São prisioneiras de um corpo mecânico. As muito belas nunca têm tempo para nós, homens. Nunca tive orgasmos infinitos, pois nunca vi capas de revistas nuas, transpirando, em meu leito. Só as estrias me faziam gozar; só a flacidez me fazia sentir um animal no cio. Sempre fui embriago de sobriedade.
Também, em algum tempo, me apaixonei pelo sofrimento alheio das fêmeas. Queria salvar, com o meu amor miserável, a miserável em absoluto.
Ainda me lembro de estar na sexta série, com os meus doze anos, quando me apresentaram, tão inesperadamente, meu primeiro amor. Uma menina comum, com os cabelos crespos, sem vida, com sua palidez, saindo da sala sem jamais receber um “não” da professora. Não compreendia o porquê daquela bondade da professora com a aluna pálida. Mais tarde fiquei sabendo que a menina de cabelo crespo era portadora de leucemia, e por isso era a premiada por poder abandonar as aulas da matemática incalculável com um simples balbucio de “licença” e o braço levantado, no alto, como se fosse um estandarte. O câncer me assustava. O câncer era o jogo de Deus contra o Diabo, num tabuleiro humano. Era o aviso prévio da morte; a vida em seu último capítulo sem fim. E eu nunca vi o câncer naquele sorriso, naquela criancice toda; naquele rebolado dentro do bambolê. Onde estava o maldito câncer?
A palidez ganhou cor, brilho. Os cabelos se tornaram macios. Apaixonei-me por ela.
Aquele sorriso sem graça. Os olhos mortos com um olhar vivo. E eu querendo ter aquela vida seca, que buscava a eternidade humana, em meus braços. Eu queria ter seios fartos de vida para amamentá-la, em meu colo, de cura.
Namorávamos de mãos dadas, pelo bosque do colégio. Trocávamos papeis de balas, que traduziam um gostar com frases pré-fabricadas.
Três anos depois a menina imortal morreu. Já não mantínhamos contato. Fiquei sabendo por um conhecido. Tornei-me pálido e seco, porém transbordando vida. Eu era um egoísta. Ela foi o meu primeiro amor e a beleza dela estava no seu sofrimento, na sua coragem, na sua ânsia de viver.
Apaixonei-me, nos meus dezesseis anos, por uma menina linda; aquela beleza estrangeira. A beleza abstrata. Ficamos juntos um tempo. Depois ela me trocou por um desconhecido, quando viajou para o litoral. Solucei o soluço dos cornos. Só os cornos que amam?
E fui me apaixonando, amando, sonhando com a princesa descalça.
Hoje eu aprendi a ser biltre. Deixei de ser um romântico lírico. Seres devotos não fazem parte da receita de Amor. Mulheres gostam de canalhas. Só os Basílios eram amados de verdade.
Continuo desejando as inatingíveis, mas as inatingíveis com mais flacidez, com bundas listradas de estrias; com mais seios virgens de silicones. Eu desejo as inatingíveis, mas as inatingíveis de surrealismo.