Embriagar de Caetano é ter ressaca de Leãozinho
Havia um vizinho, médico e alcoólatra – arroz com feijão, na feijoada -, que vivia escutando, em finais de semana, com o som acelerado, na sua cobertura de Horizonte Belo, Caetano Veloso.
Eu confesso que não suportava mais aquele disco indo e vindo em linha reta. Aliás, quem emprestou o disco para o Dr.Ébrio foi minha mãe. Era uma coletânea, com diversas músicas que havia estourado quando eu ainda estava ausente. Trem das Cores era a que mais levava agulhada digitalizada. Cheguei a pensar que o disk-play estava com defeito; que a décima sétima do disco era a única salubre, depois do medicamento.
A trilha sonora da vizinhança, em finais de semana, era Caetano Veloso. Sábado e domingo sem o baiano “London-London” haviam feiras.
No domingo havia Caetano para os privilegiados, como eu, e Silvio Santos para os alienígenas brasileiros. Eu pediria, no Porta da Esperança, doses de Caetano nos meus domingos.
Duraram algum tempo os finais de semana caetaniosos. Minha mãe já tinha certeza que havia perdido o disco. Resolveu comprar outro e presenteá-lo. O mesmo, claro.
Lembro-me até hoje do selo “Mesbla” no disquinho branco, quando Você é Linda inundava alguma novela global na época. Um bilhete fechado, escrito com algo parecido: “Dou-lhe de presente o que de presente dá aos meus ouvidos em finais de semana”.
Só eu sabia que o bilhete estava encharcado de cinismo. Domingo era dia de silêncio, e o sábado era dia de Qualquer Coisa que não fosse barulho para a remetente do cinismo oculto.
Eu tinha uns quatorze anos; Dr.Ébrio, com a tua dicção extremamente inacabada, me presenteou um copo de cerveja e alguns tira-gostos no pratinho inundado de pimenta.
Escutamos, pela milésima vez e lá vem fumaça, o disco inteiro do Caetano. Eu sempre pedia para saltar Leãozinho, mas o doutor batucava a canção no vidro da mesa e balbuciava a parte do Gosto Muito de Você, Leãozinho, morrendo de rir e fitando, com os olhos semi-abertos ao fundo dos óculos embaçados, a mulata rica em bunda que não cessava na busca das azeitonas negras, trancinhas de queijo e infinitas garrafas de cerveja.
Foi o meu primeiro porre. Desci embriagado de Caetano. Voltei com o mesmo disco de ida.
Desde então ouço e reouço o disco com o selo Mesbla, ao mergulho de qualquer tira-gosto na pimenta, fazendo nevar orégano no queijo derretido com azeite, tomando a minha cerveja, e lembrando dos meus quatorze anos; sempre saltando Leãozinho com os dois pés no solo à semana inteira em Outras Palavras.
Escrito por Leonardo Cattoni às 01h25
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