Quem nasce tatu, morre cavando
No pátio do colégio, sob o entardecer, ao predicado do sino, estava ela, minha mãe: inquieta, com os lábios pulsando, sem que o caminhar do som corresse em minha direção; se equilibrando em seu largo limite, com um olhar desfalecido. O vento movimentando a cabeleira dourada, alimentando a sua face de porcelana. E eu, longínquo de todo o bem que ela transpirava.
O meu boletim azul, pingando sangue da matemática ferida, passeava no espaço, como se a mão de marfim dela fosse uma gangorra no parque de diversão em plena segunda-feira, nublada, da metrópole. O olhar inquiridor, enriquecendo a minha vergonha; perscrutador quando a diretora, domesticada, balbuciava meus erros; procurando resultado da vingança somado à satisfação no além de toda a censura que o mal-estar impunha quando acertava a envolta do meu corpo forte de frágil, o meu rosto lívido.
Eu tinha oito anos e já carregava a responsabilidade de não possuir responsabilidade. Eu deveria ter feito com a responsabilidade o que o cão faz com o osso, quando se encontra milionário de ossos: enterrar no esconderijo a fome subnutrida.
E lá estava ela; a minha brincadeira predileta; o meu passa-tempo mais rico; a dança mais seqüencial em movimentos mais delirantes, sobre o ritmo mais rítmico; a música mais música da orquestra única, dos milhares que sobrecarregam a atmosfera.
O meu Atlas sem norte. O meu dicionário sem representação. O meu cordão umbilical servido como aletria sem sal para o Diabo zarolho.
Dentre tantas decepções que eu causei, este acontecimento foi o embrião. A matemática me fez errar desde pequeno. Nunca soube calcular contas alheias.
Escrito por Leonardo Cattoni às 23h57
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