Amanhã tem mais
Acordei, avistei o relógio brilhante e atrasado. Pulei, com os dois pés. Arrastei a janela pesada. Passeei com a minha sandália barulhenta no corredor deserto. Derramei um café dormido na minha caneca verde-limão. Acendi o meu cigarro. Fitei o cão que carregava um olhar enternecido e inquiridor; que a pouco velava o meu sono no pé do leito, onde, durante o dia, beira a luz do sol; o calorífico que aquece o cantinho de seu canto. Lugar demarcado.
Na mesa uma joaninha, com o teu odor insuportável, acompanhava o meu café solitário, com um marasmo absoluto. Esmaguei-a com um copo nu. Desapareci com o vestígio do assassinato sem graça com um guardanapo.
O interfone tocou. Do outro lado, vozes ignotas me pedindo um naco de côdea em mais um dia nacional de avidez. Resmunguei um não e bati o socorro no gancho. Não desnutro jejum.
Cortei a minha unha. Passei saliva, limpando o pó. Estralei meia dúzia de dedos arrumados.
Fiz careta com a boca espumada no espelho do banheiro. Fumei outro cigarro, enquanto lia no site que não havia e-mail pra se ler. Li o meu jornal. Vi com Miriam Leitão que o meu país continuava a mesma porcaria de sempre. Colunas repetidas.
Liguei o chuveiro. Molhei fervendo as minhas costas cegas.
Da janela eu avistei domésticas carregando sacolas de padarias, enquanto mais um cigarro morria na minha boca. O calor caía. As janelas se abriam. Tudo se repetia.
Batuquei qualquer coisa no móvel. Liguei o som que batucava Caetano melhor do que eu. Maldita madeira!
Lembrei do centro. Dos pedintes nos sinais de trânsito. Esmoreci de viver.
Tirei os sapatos. Deitei novamente. Bocejei. Espreguicei. Cochilei.
Atendi ao telefone e disse que já estava a caminho.
Escrito por Leonardo Cattoni às 00h04
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