A insistência de acertar errando
É engraçado, mas tem gente que continua na busca de erros em meus textos. Pessoas que nem me lêem ( ler é tentar enterrar a miudeza e desenterrar o contexto, quando se tem contexto, claro – Alguém já viu mineradora perdendo seu tempo? ), mas que vem aqui, na intenção de cavar assuntos na busca de erros ortográficos, gramaticais. Tudo bem, ok, vamos lá! Pegue a pá! O balde. Tente achar o ouro e grite “Independência”! Mesmo só sendo depois de não o tendo mais. Errar, como disse algum humano, é humano. Não errar é o quê? Deus? O mundo está todo errado, ora bolas! Eu sou a cagada de Deus.
Agora o pior é me passar susto, dizendo que “mas a gente age como se fôssemos fugitivos” está errado. Está certo que me esqueci, deu um lapso em mim, ao não acentuar o ‘fossemos’. Mas erro?! Onde? Quando? Ah!, deve ser como este “ah” seguido de exclamação, vírgula e depois de tudo, nascendo ainda uma letra minúscula. É erro? Sim, é! Mas como assim? É um erro certeiro. É erro para o professor de português do primeiro grau. É erro para o Word, da Microsoft e derivados - aliás, eles nem sublinharam de vermelho. rs
É erro para os que não sabem dos acertos. Dizer que o “mas a gente age como se fôssemos fugitivos” está errado, fica parecendo que somos fugitivos do coerente, da habilidade, da dificuldade da facilidade, do grau que não existe na escola, da liberdade da razão. Mas somos prisioneiros da babaquice.E lá me vem, dizer aqui, que babaquice nem existe. Sublinharam a babaquice de vermelho. Não, não está errado. Não há erro aí. Pode existir em outros lugares, mas aí, ah! aí não! E aqui, ah! aqui tudo verde! ( risos )...A L. é o meu Word prisioneiro!
Vamos ser ilimitados, vamos!
Escrito por Leonardo Cattoni às 02h02
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Os três Mosqueteiros
Literatura é um assunto complicado. Principalmente quando alguns, na roda, não gostam de ler. O Mauro sempre fala de literatura. Tudo se resume em Cem Anos de Solidão. Ele chegou a comprar, num sebo de uma cidadezinha do interior de Minas, o seu terceiro Cem Anos de Solidão. Simplesmente porque o livro custava cinco reais e era de capa dura.
Ele consegue ser pior do que o William, quando resolve citar trechos de algum livro. O cara consegue citar um capítulo inteiro, sem tirar nem pôr vírgulas. Ok!, Cem Anos não é dividido em capítulos, o que dificulta o meu entusiasmo de findar, quase declarando guerra, as tais citações. Mas toda vez que fumamos um, ele começa: “As estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra. Fim. É ou não é lindo, Leonardo?” – Cala a boca, Maurinho! Passa a bola aí, vai!
O Vitor odeia ler. Gosta é de falar de mulher, o que enriquecesse bastante o nosso diálogo.
O Vitor é aquele que não come ninguém, mas sempre está falando da ‘comilança’ humana. E mente tão bem, com tanta convicção que, quando resolve, por exemplo, descrever alguma cena em que ele comeu um harém inteiro, o meu pau desperta. Creio que o Vitor está estudando a anatomia feminina. Ele é especialista no assunto. Um escafandrista das profundezas femininas.
Esses dias fomos à Prudente. Prudente é uma avenida aqui, do meu bairro. Paramos o carro e compramos umas latas de cerveja na loja de conveniência. Havíamos fumado. Maurinho é o cara civilizado, politicamente correto, um gentil. Chego a ficar irritado com ele. Faz amizade fácil. Conversa com todos os frentistas e ainda descola um cigarro. Um oportunista sem partido político.
Eu resolvi pernar rumo ao inexato. Queria me distanciar do ovo. O ovo da pergunta, do papo, da iniciativa. Fui ao banheiro. Único lugar que se tem para fugir, num posto de gasolina.
Na volta, eu avistei o Maurinho conversando com duas gurias. O Vitor sapeava. Entrei na loja e peguei mais uma lata. Acendi um cigarro e não sabia se ia ou ficava. Na hora da indecisão, o melhor é se congelar, ficar onde estar.
Mas o Vitor, com a sua indiscrição toda, me grita e me convence a aproximar. Maurinho me apresenta as gurias, como se eu fosse uma criança indefesa.
As gurias não paravam de rir. De repente passa um guri vendendo amendoim torrado. Dois por um real. Um real já é tão sem valor, que dois, qualquer que seja a coisa, por um real, é coisa de cinema. Maurinho pega o moleque de conversa e não compra porra nenhuma. Mas Maurinho, como sempre, adquiri afinidades com o vendedor de amendoim, que fica lá, parado, hipnotizado com os devaneios sutis dele, perdendo o seu tempo que, com certeza vem com aquele clichê de que tempo é dinheiro. Vitor aproveita a nossa ausência, o nosso policiamento, a nossa censura e começa com suas alucinações. Inventa o mundo que construiu para doparem as gurias, no intuito de comê-las. Eu despacho o vendedor de amendoim. Observo, como telespectador assinante, o papo frenético de Vitor com as gurias. Faltou a pipoca e o guaraná. Um sofá, por gentileza!
Entro no carro com Maurinho e queimo mais um, ao som de Human – aquela canção empolgante de The Pretenders. Por incrível que pareça, bem na hora, um carro da Civil pára. Isso broxa! É como praticar sexo anal com uma linda guria e o pau sujar de merda. “Por que fomos fumar aqui? Por que fui meter ali?” O proibido é estimulante, convenhamos. “Que nada! se tem o baseado e o buraco, manda ver!” – O diabo diz.
Maurinho, com a boca cheia de fumaça, o pulmão prestes a explodir, diz: “Vamos apagar, cara!” E faz do carro uma sauna alucinógena.
De repente, com o pulmão inchado de fumaça, avisto, do lado de fora do carro, o Vitor beijando uma das gurias. “Pqp! O cara levou a melhor! Ganhou o troféu da noite.” Está certo que era a mais feia das feias, mas mesmo assim é um motivo de na volta pra casa o Vitor se vangloriar, contando isso e aquilo.
O carro da Civil se foi. Entramos na loja e compramos mais cervas. Engraçado isso, mas a gente age como se fôssemos fugitivos. É a mania de perseguição, fora que temos quase 90 gramas debaixo do banco traseiro.
Maurinho pega um chips e me obriga a também pegar. Voltamos, ficamos de platéia, assistindo o Vitor e a guria praticando movimentos excitantes e até cômicos. O Vitor fazia questão de beijar com os olhos abertos, como proíbe o figurino, para provar pra gente, que estava testemunhando, o que de fato ele comentaria na volta para a casa.
O pedaço de isopor com cheiro de chulé, depois que estamos entorpecidos, parece picanha da melhor churrascaria da cidade. A boca engordurada e as mãos buscando guardanapos que não absorvem o charme da coisa gordurosa. Chips...
Escuto as anedotas do Vitor. Vejo a reação da mulher enganada. Vejo o Maurinho comendo. Vejo os meus olhos brilhantes no retrovisor. Observo os carros sendo abastecidos. E o Vitor continua na labuta.
Ligo o carro e findo com a festa de Vitor. Vitor faz cara de reprovação. Maurinho sacode as pernas imundas de farelos.
Vitor entra no carro, diz que eu sou foda e começa o papo. Tu já imaginas o que seja, não?!
Escrito por Leonardo Cattoni às 18h39
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