Meu nome é Gal!


Uma viagem real na aeronave LSD

Sentei numa mesa de bar e um conhecido gritava ‘Coca-Cola’. - “Grite, Coca-Cola, cara!”

Hum? Mas que desgraça fizeram na sua cabeça?! Uma lavagem cerebral feita pelo pastor Capitalismo?  - “Vamos, grite ‘Coca-Cola’, cara!” -  Por quê? - “Eu tenho que beber essa merda, senão eu piro, eu piro!” - Pira? Mas que baseado é este, cara?! Gritar não resolve nada. O lance não é beber?! - “Grite que eu bebo, grite, grite! Eu alimento os canais, bebendo pela tevê. Agora eu quero escutar pela rádio!”

O silêncio reinou, tomou todo o espaço. Eu não escutava nada, tampouco conseguia pronunciar uma palavra. ‘Que merda de doce!’ – pensei. Comecei a ver legenda. Tudo que ele me dizia, inclusive “Coca-Cola”, havia sido digitado na minha tela. Eu lia e lia, demorava entender, como se eu fosse uma criança de cinco anos, tentando acompanhar a legenda de um filme preferido, de péssimo gosto, da mãe, num cinema escuro.

De repente, uma guria alisava meu pau, por debaixo da mesa, com as pontas dos dedos vestidas de botina. Eu queria mascá-la, como se faz com chicletes, e jogá-la fora depois do açúcar consumido. Mas que doce, Meu Deus!

Casei com uma garrafa de vodka pela metade. - “Vão nos prender, vão nos prender!” - Relax, cara! Vão nada! Olha eu dizendo aí! Eu disse, eu disse, cara! Viu?! - “Foda-se, eu quero a minha Coca-Cola!”

E meu pau, duro, que mirava para o céu, querendo matar as possíveis 238 pessoas a bordo daquele aviãzinho que lá em cima passeava, desejava mergulhar na guria, do outro lado da mesa.

A guria fazia como protagonista de filme pornô. Os olhinhos virados e o lábio inferior pra frente. Só faltava pronunciar um ‘Fuck-me!’, dublada pela Pamela Anderson, como no iate com o Tommy Lee. A beleza dela era uma gripe. Contaminava o lugar. Exalava delícias de sacanagens, por conta de sua safadeza delirante.

- “Vou fazer que nem aquele personagem do Leminski. Vou dizer que implantaram uma bomba atômica em meu cérebro e que se eu disser tal palavra, ela será detonada, cara!”-  Hum? -  “E aí, seus guardas! saiam, saiam que eu vou dizer!” - Pô, cara, isso foi bacana. Nenhum policial leu Leminski. O máximo que vai acontecer é saber que tu estás loucão.

- “Saí, saí, eu vou dizer!” - E qual seria a palavra? “Está louco?! Eu não digo, eu não digo!” Diz aí, cara. Diz, porra! Explode logo com todos!

Porra, eu vou gozar! Pare de fazer essa cara de puta! Eu vou gozar e vou fazer tu me limpar com o seu casaco de pele-paraguaio!  Pare...! Não, não, continue, continue, por favor, continue...

- “Compra a Coca-Cola, vai!” - Putamerda! Que merda é essa que tu fumaste, cara?! - “Cala a boca! Olha os cana! Eles vão sacar!” - Diga que dirá a tal palavra, cara. Ameace os otários. Eles têm 38 e tu tens uma bomba atômica, se esqueceu?

E finalmente eu gozei. Agora eu queria exterminar com a guria. Queria que o meu conhecido tivesse mesmo uma bomba e tacasse no rabo dela. Eu queria fazer de seus miolos um tira-gosto para me ajudar no casamento com a vodka. Eu queria sair correndo, mesmo correndo o risco de ser atropelado. Eu cuspi o chiclete longe e finalmente bebemos Coca-Cola.

Que doce!



Escrito por Leonardo Cattoni às 21h58
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Quero o meu domingo carioca

Pego a água fresca da bica de alumínio e sacio minha sede em câmera lenta. Traduzo o inodoro e a insipidez. Como é bom não correr contra os ponteiros velozes!

Abro a geladeira e miro, com a minha espingarda esfomeada, no consumível tímido. Aniquilo com a caça inerme, gelada, já morta, exposta nas prateleiras da vitrine Brastemp.

Fecho a porta de meu quarto e embarco no mundo, navegando em todos os oceanos pintados em meu quadro. Ando sobre as nuvens, alimentando os urubus com alpistes enlatados. Pego carona nos supersônicos transcendentes. Fito, pela janela, a aurora na companhia de um cigarro. Os estrangeiros crêem que sou um prisioneiro. Não, não sou. Sou, talvez, um auto-exilado. Eu posso ir aonde eu quiser daqui, do meu quarto, do meu refúgio. 4 paredes destruindo muros. Basta apertar o botão ou abrir algum livro. [ toc-toc – batendo na tela] Alguém aí, do outro lado, me lê?

Deito no tapete do meu quarto e finjo ser cachorro morto, para acompanhar Rebeca e sua notória superioridade, vista de cima, de muito longe, sem binóculos. Aquela preguiça canina que contagia. Enterro a seriedade como ninguém! Sou Jordan de cueca e descalço. Calço Reebok na alma. Faço um campeonato comigo mesmo de cuspe à distância, e sempre venço perdendo. Escuto Daniel, do Elton John, pra lembrar de Diniz no Rio de Vinicius. “Ah, minha amada, de olhos ateus, cria a esperança nos olhos meus. De verem um dia o olhar mendigo, da poesia, nos olhos teus”. Sua ausência é dilacerante, ó, guria maligna!

Latas de cerveja consumidas. A memória é solúvel em álcool. Consumo a memória, investindo na alegria que não te contamina. Uma preguiça de brinde, vindo na tampinha de domingo. Um dia de pusilanimidade esgotada.

Ao invés de morrer esperando a vida, hoje eu vivo esperando a morte. Ó, feliz de mim, um mortal buscando viver na sua morte declarada! Carioca-alemã-russa-universal, dê-me seu mundo inteiro. Deixa-me explorá-la para ficar tão rico quanto tu, menina-dançante.

E o domingo se vai, como vai a minha sobriedade preguiçosa, buscando notoriedade num blog que clama tu, num domingo pacato, diaba Diniz.



Escrito por Leonardo Cattoni às 01h44
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