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2005 titubeando
De nada fazer que só em mim aqui chegue. Chega dia após dia. Sem precisar bater a porta. Repetição de números nas dezenas infinitas de segundos.
Dois-mil-e-seis é só enganação para facilitar no preenchimento de cheque. Quem contou os dias?
Mais um ano de Copa. Mais quatro anos roubado de nós. É Pênalti?!
Na paranóia do passageiro, uma paisagem que não retorna. Não desenha no retrovisor. Passagem passando sem licença. De mãos dadas com a misantropia.
A cada letra t-e-c-l-a-d-a, menos uma célula em mim, em nós, em tu.
A vida soprada pelo dragão sem fogo. Nascimento é morte prematura.
Trezentos-e-sessenta-e-cinco dias a mais de passado que anuncia um futuro ansioso. Segundos amontoados. O que fazer com eles? Devolva-me! Já foram encadernados e serão editados como livros de história para nossos herdeiros.
Meninos e meninas correndo nas ruas. Meu passado vizinho. Inquilino proprietário. Velhice os esperando. Último degrau.
Desastres, mortes, assassinatos, roubos: tudo isso são bordas da Vida sem pauta. Anote aí!
Na imensidão do limite, nós, todos os leitores desse e de qualquer indecifrável que a vida rabisca. Dê-me um dicionário.
Mais um ano para a vida sem proprietário. Menos um ano para os de hoje. Os de amanhã esperam vagas.
Não me dou ao luxo de me cobrir de branco, de me equilibrar com o pé direito, de encher barriga com futilidades, de sentar e fitar queima de fogos. Não me dou ao luxo de uma despedida inefável. Resultado previsto em hecatombe.
Comemoração de uma despedida, ahn, não revelada para os insensatos. Muito menos publicada. Uma morte pré-datada.
Desejo a todos os leitores deste uma coisa imorredoura e sempiterna: espiritualidade.
Que continuem aqui no ano que aponta. Que os mesmos olhos me mirem no ano ainda estrangeiro. Que passeie por aqui com a mesma intensidade.
Findo este para tomar um banho. Depois a gente vê onde não vai dar. Já falta menos de dez minutos para o ano de 2005 ser derrubado no primeiro round. Espero-o limpo.
Escrito por Leonardo Cattoni às 23h55
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Para Homens
Como a coisa anda se modernizando, não!? Hoje eu recebi um e-mail falante da Val. Sim, ela me escreveu falando. Ah! nem sei como descrever. Tão surreal! Ao invés de gastar dedinhos, buscando teclas desorganizadas, ela simplesmente emitiu sons vazados pelo aparelho fonador. Mas que maravilha de e-mail! O melhor disso tudo é que não gastei tempo e nem visão lendo. Fechei os olhos e escutei uma voz super-big-hiper sensual. É telinha, caixa de som e o escambal!
Não sei se já existe aquele treco, provavelmente japonês, com um orifício, onde o pênis procura adaptação. E claro, há também para as mulheres! Não, não é maquininha de fazer dinheiro.
Daqui uns dias eu vou poder adquirir uma mulher por ninharia. Pagarei tranqüilamente dez mil conto, sem contar nenhum conto. O problema é ver algum técnico, quando o treco quebrar, colocando a mão suja de óleo na minha mulher.
Nunca terá rugas, flacidez, tagarelice, seios caídos, extorsão, reclamações. Só mesmo um homem (gênio) para criar uma coisa dessas! Enfim, está sanada a nossa dor de cabeça. Se criarmos um aparelho genitor, poderemos tranquilamente exterminar com toda a raça de humano-feminino. Um homenzinho lá do nordeste, que assassinou brutalmente a mulher, dando explicações pelo assassinato: "ô, senhor delegado, minha muié não trepava mais comigo como dantes. Muié que não sabe fuder a gente tem de matar! O que mais ela sabia fazer?! Nada! Não senhor, eu já tenho uma empregada. E como ela trepa bem, sô!"
Para esse homenzinho a gente dá uma boneca inflável.
Eu, que não sou bobo nem nada, vou comprar é uma mulher Samsung, pra ganhar dois anos de garantia. Tem coisa melhor?
Esse será meu próximo investimento!
Escrito por Leonardo Cattoni às 21h31
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Daqui a pouco este texto terá o seu paletó de madeira
O texto “bukoviskiano” me rendeu alguns e-mails. Já havia dito isso. A Val Colares me disse que quer publicar no blog dela o comentário que escreveu sobre meu texto. Gostei do comentário dela sobre o meu texto. Gigante em todos os sentidos, como sempre. Também acho que ela deva postar. Desta vez eu não o publiquei aqui.
Ivan Lessa disse uma coisa certa: “Só no Brasil é que as pessoas escrevem para ‘parabenizar pela excelente reportagem – ou artigo e crônica – publicada no dia tal'. Concordar com um jornal o tempo todo é péssimo sinal.”
Eu entendo muito das vezes que o silêncio daqueles que às vezes me escreve ‘parabenizando’ tal texto é, na verdade, um repúdio oculto: uma forma de não desmerecer tal trabalho. Garanto que não me é trabalhoso.
Antes, no meu blog, os comentários eram abertos. Decidi bani-los. Ao invés de pessoas escreverem sobre meus textos, resolviam usar o espaço gratuito, mesclado com preguiça e desinteresse, para marcarem saídas em botecos e afins.
Agora já escrevem dizendo sobre as minhas erratas nas concordâncias verbais, do meu niilismo imbecil, da minha antipatia pela pátria mãe. São e-mails imencionáveis. Fica até parecendo um subtexto pornográfico. Costumo nem responder. Se não gostam de me ler num blog, imagine num e-mail! Ter que aturar os meus textos com a intenção de ser lido por um único leitor, com apenas um único destinatário, deve ser duro.
Eu pensei que com o “bukoviskiano” eu teria um salubérrimo aumento de insultos. Enganei-me profundamente.
Se eu levo a coisa a séria, recebo algum insulto. Se eu levo a coisa na brincadeira, todos levam também. Não há discernimento.
Enfim, perdi o interesse de escrever no objetivo de sugar algum comentário. Quero ser lido, apenas.
Já me perguntaram se eu sou cômico. Sim, eu sou cômico. Levo tudo na brincadeira. Vivo brincando com letras que eclode uma seriedade que logo em seguida me deprime. A Valéria, no outro blog, levou tão a sério que eu desisti. Talvez possa ser que seja apenas uma briguinha, como em certos namoricos que, ao reencontrarem, um diz para o outro: “Vamos passar uma borracha no passado.” Um texto serve mesmo para apagar o outro, pra vestir o outro com paletó de madeira. Um enterro sem choro, sem culpabilidade, sem nada.
Pode ser que o próximo texto seja uma receita de bolo de fubá. Não há continuação.
Dissabor maior é ser levado a sério. Isto aqui não passa de um passa-tempo dentro da ociosidade que beira a falta de criatividade. Falta do que fazer. Mainardi já dizia que o difícil é ficar deitado no sofá, sem escrever nada, pois requer uma aceitação filosófica da própria transitoriedade.
Vou continuar a escrever, continuar a receber puxão de orelha, e continuar a não responder os e-mails, mesmo àqueles que ousarem a incrementar a receita que provavelmente não virá.
Enfim, estou rouco de tanto escrever.
Findo aqui. Ponto, sem etcéteras.
Escrito por Leonardo Cattoni às 01h01
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Ressaca Medonha
"Uma ressaca medonha. Como odeio o natal!" Assim começa um dos contos de Gore Vidal, no livro Um Momento de Louros Verdes. E assim também começa o meu dia, após uma comemoração sem pé nem cabeça.
Vestígios de uma noite comemorativa não faltam. Latas de cerveja espalhadas pelo meu quarto, tocos de cigarro fazendo eclipse no cinzeiro. Qualquer motivo é motivo para comemorar. Vivemos no país do futebol, então, até gol contra é motivo para encher a cara.
Diniz está no Rio de Janeiro e me telefonou antes das nove. Elaine me ligou da praia, mas disse que o natal não era o motivo de tal telefonema. Tias, tios e afins telefonando dos quatro cantos do mundo. Eu deveria gravar algo do tipo: “Pra ti tbém, tudo de bom. Feliz Natal!” Me pouparia bastante.
Natal sempre foi sinônimo de presentes, de um capitalismo necessário, do capitalismo do bem. Sabia que o papai-noel se veste de vermelho por conta da Coca-Cola? A cor do 'amor' pela Coca-Cola.
Eu adoro ter uma desculpa para beber. Livra-me de um suposto rótulo de alcoólatra. Beber sozinho é ruim. Então sempre aparece mais um querendo encher a cara por conta do natal.
A verdade é que a gente fica mais vulnerável no natal. Sei lá, uma sensibilidade nos tomam conta. E por conta disso surgem milhões de pedintes nas ruas, com caixinhas furadas e mãos estendidas. Os garis, que recebem para catar os lixos, varrer e tal, pedem, nessa época do ano, contribuição por ter catado as sobras da gente. Como se fizessem a coleta sem receber nada durante o ano inteiro. Caixinhas nos caixas, roubando os nossos trocos para seguirem um destino que desconhecemos.
Ontem eu dei uma saída com o meu pai. Fomos ver os enfeites nos pontos turísticos de Belo Horizonte. Sim, verdade, a cidade ficou muito bonita. A Cemig fez um bom trabalho na Praça da Liberdade. Aquelas luzes nos deixam sensíveis por demais. Resolvi distribuir dinheiro, feito bobo. Gastei mais de vinte reais dando para os pedintes. Culpa da Cemig!
E agora estou aqui, querendo beber pra curar a ressaca. E eu gastei vinte reais! Quantas cervejas daria para comprar?
Escrito por Leonardo Cattoni às 13h01
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