PRA ELA
Faz tempo que não escrevo sobre Ela. Fui privado por mim e por Ela de citar aqui o nome, ou até mesmo sobrenome dela. Agora a chamo de Ela. Respeito a vontade dela muito depois de respeitar a minha.
Ela é tão distante, e de tão acolá é mulher de se respeitar. Respeito com tanto esforço, que fico outro. Esse outro eu gosto mais. Mais do que esse que hoje escreve.
Vontade de tê-la nunca acaba, mas ela é tão longe que me resguardo dos desejos. Digo que tudo isso é mentira. Digo pra me resguardar. Queria era sufocá-la com meus braços encurtados. Enlaçar todo aquele mundo. Ficar em júbilo!
Ela é tão linda que é mais linda do que Ela. Assim eu acho e já tenho certeza desde do início. O eu de agora deveria sobreviver ao lado dela, mas ele é tão covarde que foge de mim pra não encontrar com ela. A impertinência me domina!
Sábado, por exemplo, saímos sem norte. Nunca precisamos de rumo pra chegar onde queremos. No caminho sentamos num barzinho que vendia cerveja pequena com preço de cerveja grande. Pra quem gosta de beber de verdade e fazer mágica com o dinheiro que tem, o lugar não era lá. O propício estava longe. Fomos então para o longe, para o Baianas, mas o Baianas estava cheio de mineiros. Sentamos então ao lado, como é mesmo o nosso estado.
*Ela sabe, nesse instante, que ela é Ela.
No lugar o que me incomodava era o calor. Incomodava tanto que nem beijo eu conseguia, embora queria. Tenho alergia de calor. Verdade verdadeira! O meu corpo empola e a minha pele fica vermelha como o lápis que colori sangue. O calor colori minha face, e minha pele arde como arde uma sola de pé nu dançando numa brasa.
Cigarros cerveja a gente. Eu queria mesmo era outro calor. Aquele que brota entre as pernas dela; que nasce da nascente verdadeira. Será que me entende? Suaria com prazer sem suar. Não gosto é de calor estrangeiro! Mas, qual dos dois é estrangeiro? Lá dentro não sou forasteiro!
No bar ela me perguntou qualquer coisa e eu respondi sem faltar verdade alguma. Fui sincero e ela não gostou. Mas ela fingiu que estava tudo bem, e fingiu tão bem que só sozinho percebi que era fingimento. O meu gostar deveria tomar dela um perdão por eu ser assim, tão errado em ser certo. E olha que foi ela quem me ensinou a nunca falhar com a verdade, arrasando o que tivesse de arrasar.
Ela ainda guarda mágoa. Tanto que sumiu de mim. Mas ela some de mim é pra eu aparecer pra ela sem ela mendigar. Uma meninice adulta! Pareceu que o tamanho dela era a única diferença desde que nasceu.
Agora fico aqui, sentado na cadeira de meu quarto, escrevendo sem pensar e pensando em parar. A cada segundo longe dela eu ganho dois ou mais. Uma eternidade para encontrar com aquele olhar! Mas com Ela eu perco três o que for a cada um que ganho com ela.
Hoje é dia de escrever. De caçar ela aqui. De saudade sufocar. Que calor! Até agora não separei da saudade. Coisa ruim é saudade. Ruindade que Ela me deu na alma. A saudade alimentada às vezes gera amor criança, às vezes mesmo outra coisa. Mas Ela me deu é saudade de raça; saudade pura. E a saudade só se despede quando Ela chega. Aí a coisa muda! A saudade fica de tocaia, esperando Ela ir embora pra me buscar. Uma vai e a outra vem. As duas, juntas, não combinam.
No sábado que a gente encontrou eu já calculava centenas de segundos. Qualquer segundo com Ela é sagrado. Resultado final negativo. Perdemos uma hora; perdemos um planeta de segundos.
Dez da noite com Ela já era onze. Não sei por que a tolice de se esperar meia-noite pra matar o defunto?
Cheguei em casa no horário inimigo, sem Ela.
No quarto, sozinho, eu arrumei um companheiro fiel. Bebi e ameacei abrir um livro quase morto, mas ela não me permitia matá-lo. Ela dominava a minha cabeça de leitor. Roubava minha concentração pras coisas que não tinha ela. E tudo passou a tê-la.
Pensei nela, ali, sozinho. Sabe como? Ah! Como deve ser quando deseja uma mulher sem mulher. Mas parei com o ato. Quietei sem hesitar por um segundo. Parei de tê-la sem Ela. Voltei pra mim. Abarcar é no lar!
Locupletei de saudade. Acostumaram-me a acostumar a nunca acostumar e eu não acostumei. “Ela! Agora!”-dei de capitão e vi soldado em mim a debochar da ordem não cumprida.
Logo pousou uma raiva em mim. Raiva grande, vinda não sabe de onde. Depois veio o equilíbrio bambo e a vontade agora era de dormir para Ela sumir.
Ah! Ela deveria assumir que gosta de mim, mesmo achando que dela eu não gosto. Mas ela gosta dentro dela. Faz do gostar prisioneiro. Agora Ela tem que vir aqui pra saber que aqui existe também gostar.
Mas Ela é assim, e assim é aqui também.
“Ela é tão jovem. Eu tenho amor por ela. Ela é ela. Ela separa as pernas e vem outra”...
Escrito por Leonardo Cattoni às 11h53
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