Continuação...
O MISTÉRIO
“COMEÇO com o começo de tudo. Que é pra não ter problema com o leitor. O começo do universo por culpa de Nosso Senhor. O começo de tudo! A explosão primordial. Mas antes gostaria apenas de deixar claro a minha satisfação de aqui estar. Me é muito prazeroso ficar distante dos romances do Euclides da Cunha, do Graciliano Ramos e do Guimarães Rosa. Está certo que fico meio deslocado, mas ter Leonardo como meu criador foi uma benção.
Leonardo me deu oportunidade de mostrar que sobrevivo longe da miséria. Que eu, como sertanejo, não sirvo apenas para queixar da miséria, dos filhos morrendo, do esquecimento de São Pedro, da terra improdutiva, do gado magro, da matança promovida pelos jagunços. Leonardo me deu outra função. Uma função que nunca seria para um sertanejo. Nem me sinto mais um sertanejo.
Estou contrariando todos os romancistas do gênero narrando uma história onde não há miséria, uma história distante da minha já enraizada.
E o mundo? Se a coisa tem começo, ela tem por obrigação ter um meio e por fim o seu fim. Pra mim o MEIO do mundo é o sertão pernambucano, assim como o meio de um corpo humano de ‘costas’ é o cu. Pode se dizer então que o sertão pernambucano é o cu-do-mundo.
E depois da explosão, quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Se a mulher veio da cacunda do homem, da cacunda de quem veio o homem? Sempre me interessei por esses mistérios.
Diante da seca, da mulher labutando, dos filhos brincando com as ossadas do gado, da cadela roçando o couro e o osso nas estacas do curral e enxotando os mosquitos com sacudidas, dos jagunços atirando pra todos os lados procurando acertar justiça eu olhava para a imensidão do céu do Sol e matutava o surgimento daquilo tudo.
Enrolava o meu fumo e admirava a natureza que fazia pano de fundo da miséria. O Diabo e Deus juntos na minha frente. Os dois ali, pertinho. O encontro deles é no sertão. Deus no céu, invisível, e o Diabo embaixo, andando ao meu lado. E eu no meio, no cu-do-mundo.
Durante o meu trabalho nas terras do Sr. Leopoldo eu vivia o perguntando sobre o surgimento da vida. Foi o Sr. Leopoldo que me disse da explosão, do tal ‘bigueben’. Fiquei ‘bestolado’ com aquela explicação toda e injuriado por me darem o caco mais pobre do universo, do ‘bigueben’.
Sei do surgimento, do tal ‘bigueben’como podem ver. Sei também que o sertão é o meio de tudo, mas pra onde vamos? E o FIM?”...
CONCLUSÃO: Josué morrera sem resposta. Morrera na miséria. Adquiriu uma doença incurável e não conseguiu contar a tua pobre história. Josué foi incapaz de realizar um trabalho longe de teu “reduto”. Não conseguiu se desvincular do sertão, da miséria, talvez por receio de perder a tua identidade. Josué só se sentia útil sendo protagonista da miséria, contando miséria e vivendo nela.
Assim como Josué não conseguia se livrar do sertão eu não conseguia me desvincular do desconexo. Síndromes!
Sem perceber Josué citou a cadela magra, os filhos miseráveis, a mulher trabalhadeira e o seu amo. Não se permitiu abandonar o cenário de costume. Josué só não citou a sua doença porque a doença não permitiu. A doença foi o tiro de misericórdia vindo do Céu, dado por algum jagunço de lá. Josué morrera de tuberculose e de inanição.
Como podem ver o meu texto continha Começo, Meio e Fim, e se foi confuso é porque tem que ser assim. Não tem como me convalescer da doença que toma conta de mim como um blogueiro: o desconexo.
O íntimo é confuso. O blog serve de vitrine para a exposição da intimidade retocada. Um brechó! O blog é um divã e o leitor o próprio psicanalista.
Não tem necessidade e nem obrigação de ter sentido, aliás, tem por obrigação não ter conexão.
Escrito por Leonardo Cattoni às 12h53
[ envie esta mensagem ]
|