Meu nome é Gal!


DOIS TEXTOS E UMA VERDADE

Débora uma vez pediu que eu desse uma espiada no seu “pseudo blog”, pois havia escrito sobre Salinas. Cheguei no Nonada e li. Aniquilei o zero com um comentário nulo. Depois a disse que ela era muito confusa como escritora. Ela simplesmente soltou um “rs” e concordou.

Resolvi então criar um blog, um pseudo blog, um Recanto e me tornei também um confuso. Tornei-me uma Debi mais “pobrinha”. Depois meu e-mail e msn foram infestados de Leonardos.

Onde antes eu era um confuso por hereditariedade, agora havia um esforço imenso para não destruir o perfil do Leonardo blogueiro. Transformei-me num confuso profissional.

Eu já havia dito sobre essa minha “confusão” no meu finado blog. O que me fez voltar aqui foi um telefonema que recebi. Por telefone me disseram que eu era confuso como escritor, que a maioria dos meus textos não tinham sentido algum. A insegurança da pessoa em manifestar essa tua opinião em relação ao Leonardo escritor era tão grande que precisou citar a opinião de uma amiga que também me leu, mostrando que as opiniões eram idênticas.

Do e-mail para o telefone; do MSN para mesas de bares. Ando tão cismado com a repercussão da coisa que fico imaginando eu pegando algum elevador desses prédios comercias e sentindo no meu ombro o peso de uma mão, ouvindo em seguida: “Cara, os textos do teu blog são muito confusos! Agora me dê licença que o meu andar é esse!”

Resolvi então escrever um texto com início, meio e fim; um texto fiel ao título ou vice-versa. Enfim, um texto com sentindo.

Criei uma história com Começo, Meio e Fim, narrada por Josué de Brito, um nordestino do sertão pernambucano.

 ( Leia o próximo! )....



Escrito por Leonardo Cattoni às 12h54
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Continuação...

O MISTÉRIO

 

COMEÇO com o começo de tudo. Que é pra não ter problema com o leitor. O começo do universo por culpa de Nosso Senhor. O começo de tudo! A explosão primordial. Mas antes gostaria apenas de deixar claro a minha satisfação de aqui estar. Me é muito prazeroso ficar distante dos romances do Euclides da Cunha, do Graciliano Ramos e do Guimarães Rosa. Está certo que fico meio deslocado, mas ter Leonardo como meu criador foi uma benção.

Leonardo me deu oportunidade de mostrar que sobrevivo longe da miséria. Que eu, como sertanejo, não sirvo apenas para queixar da miséria, dos filhos morrendo, do esquecimento de São Pedro, da terra improdutiva, do gado magro, da matança promovida pelos jagunços. Leonardo me deu outra função. Uma função que nunca seria para um sertanejo. Nem me sinto mais um sertanejo.

Estou contrariando todos os romancistas do gênero narrando uma história onde não há miséria, uma história distante da minha já enraizada.

E o mundo? Se a coisa tem começo, ela tem por obrigação ter um meio e por fim o seu fim. Pra mim o MEIO do mundo é o sertão pernambucano, assim como o meio de um corpo humano de ‘costas’ é o cu. Pode se dizer então que o sertão pernambucano é o cu-do-mundo.

E depois da explosão, quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Se a mulher veio da cacunda do homem, da cacunda de quem veio o homem? Sempre me interessei por esses mistérios.

Diante da seca, da mulher labutando, dos filhos brincando com as ossadas do gado, da cadela roçando o couro e o osso nas estacas do curral e enxotando os mosquitos com sacudidas, dos jagunços atirando pra todos os lados procurando acertar justiça eu olhava para a imensidão do céu do Sol e matutava o surgimento daquilo tudo.

Enrolava o meu fumo e admirava a natureza que fazia pano de fundo da miséria. O Diabo e Deus juntos na minha frente. Os dois ali, pertinho. O encontro deles é no sertão. Deus no céu, invisível, e o Diabo embaixo, andando ao meu lado. E eu no meio, no cu-do-mundo.

Durante o meu trabalho nas terras do Sr. Leopoldo eu vivia o perguntando sobre o surgimento da vida. Foi o Sr. Leopoldo que me disse da explosão, do tal ‘bigueben’. Fiquei ‘bestolado’ com aquela explicação toda e injuriado por me darem o caco mais pobre do universo, do ‘bigueben’.

Sei do surgimento, do tal ‘bigueben’como podem ver. Sei também que o sertão é o meio de tudo, mas pra onde vamos? E o FIM?”...

 

 

CONCLUSÃO: Josué morrera sem resposta. Morrera na miséria. Adquiriu uma doença incurável e não conseguiu contar a tua pobre história. Josué foi incapaz de realizar um trabalho longe de teu “reduto”. Não conseguiu se desvincular do sertão, da miséria, talvez por receio de perder a tua identidade. Josué só se sentia útil sendo protagonista da miséria, contando miséria e vivendo nela.

Assim como Josué não conseguia se livrar do sertão eu não conseguia me desvincular do desconexo. Síndromes!

Sem perceber Josué citou a cadela magra, os filhos miseráveis, a mulher trabalhadeira e o seu amo. Não se permitiu abandonar o cenário de costume. Josué só não citou a sua doença porque a doença não permitiu. A doença foi o tiro de misericórdia vindo do Céu, dado por algum jagunço de lá.  Josué morrera de tuberculose e de inanição.

 

Como podem ver o meu texto continha Começo, Meio e Fim, e se foi confuso é porque tem que ser assim. Não tem como me convalescer da doença que toma conta de mim como um blogueiro: o desconexo.

O íntimo é confuso. O blog serve de vitrine para a exposição da intimidade retocada. Um brechó! O blog é um divã e o leitor o próprio psicanalista.

Não tem necessidade e nem obrigação de ter sentido, aliás, tem por obrigação não ter conexão.

 

 



Escrito por Leonardo Cattoni às 12h53
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O Hoje Explica o Hoje!

Hoje é domingo. Devo postar esse no dia que me for conveniente. Qualquer dia é dia.

Escrevo a mão, longe do teclado. Janela como tela. A letra vai surgindo de acordo com o meu (des)ânimo. Uma lassitude que me devora!

Estou gripado e por isso impossibilitado de fumar. A gripe alimenta o meu desânimo, o meu nervosismo e a minha ansiedade. Passo um “rabo de olho” no cigarro solitário no cinzeiro e meus olhos se fecham “maquinalmente”. Garganta seca pedindo café e o café exigindo o proibido. Maltrato a garganta e ela vinga. Quanta covardia!

Pra não passar despercebido eu digo que hoje é segunda. A gripe continua. O cigarro continua no cinzeiro. A gente é consumido pela vida e consome a morte - essa frase é um quebra-cabeça com peças idênticas.

O leitor nunca interferiu nos meus textos. Sempre foi subalterno em relação a mim, autor. Mas hoje eu peço ao leitor que me traga tragos e café. Que interfira de modo tão peculiar e me chame de bipolar. Sou tão categórico em minhas convicções que não me dou ao trabalho de censurar o desagradável. Recuo e então atiro. Jogo fora todas as precauções e me transformo num verdadeiro lhano. É assim também quando amo.

O amor me entontecia. A idiotia me lava. A gripe me incomoda. O cigarro me cura. A idiotia me cura. A gripe me lava. O cigarro me incomoda. A idiotia me cura. A gripe me incomoda. O cigarro me lava. O amor é o curinga maior. Não se gasta ele!

Nada se pode concluir sobre esse texto. Não estão proibidos, são impossibilitados pela natureza. A vida não doa aptidão. Esse texto muito menos.

Perdi-me dentro desse texto por não ter nenhuma referência.

Hoje é terça-feira. A gripe ameaça fugir. O cigarro vira fumaça. Hoje poderia ser quarta-feira. Hoje eu poderia me livrar da gripe. Hoje eu poderia ficar em silêncio; ser mais egoísta e me dividir comigo. Hoje eu poderia ir ao encontro da Procópio e apresentar a verdade. Mas todo instante é hoje. Todo futuro é hoje. Só não é domingo porque o domingo resolveu passear durante seis hojes nos arredores do hoje. Todo dia nasce e morre no hoje.

Hoje é terça. Posto esse hoje porque me é conveniente. Qualquer dia é dia. Qualquer dia é hoje.

 



Escrito por Leonardo Cattoni às 11h51
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