De Graça até Jornal Pampulha
É distribuído, gratuitamente, cerca de 116 mil exemplares do Jornal Pampulha aos domicílios de Belo Horizonte nos finais de semana. A maioria da distribuição é feita na zona sul.
Estou incluído nesses 116 mil “privilegiados”.
No final de semana o Pampulha está derramado em minha casa. É Pampulha no sofá, na cama, no banheiro...
Fico folheando o jornal gratuito, que, de tão gratuito, nem vem com uma palavrinha cruzada pra passar o meu tempo.
A coluna do Paulo Navarro mostra, talvez, um dos motivos de não “derramarem” os jornais nos casebres. O motivo não seria que a pobreza é “ininteligente”. Nada disso! A questão é que o Navarro sempre enche as colunas dele de coquetéis de lançamentos, inaugurações de butiques em regiões nobres, shopping Pátio Savassi, grandes eventos como, por exemplo, o da Clínica e Pet Shop Dog Service. Mas o Navarro não me interessa. Pra mim as colunas do Navarro são como publicidade de produtos agrícolas.
Creio que o Navarro seja um dos sócios do Pátio Savassi, ou criador de algum “Sindicato”, que vive extorquindo, dos sindicalizados, esmolas para indicá-los aos leitores que têm sede de consumo.
Se o Navarro sugerir ao leitor a dar uma passadinha no Bar do João eu deixo de freqüentá-lo, ou parto para o Pátio Savassi atrás de cerveja a R$ 2,50.
De fato, o que mais me fascina no Pampulha são os artigos de Laura Medioli. É a primeira coisa que leio. Ao virar o jornal de costas, já que o artigo dela é sempre o último, me vem de imediato uma pergunta quase que instintiva: “Qual será a parvoíce de hoje?”
Aquele ditado popular que alimenta o vaidoso rejeitado: “Fale mal ou fale bem, mas fale de mim” pode ser aplicado dentro do íntimo desolador de Medioli, sofrendo pequenas alterações: “Goste ou não de minhas porcarias, mas, por favor, leia-os!”
Na foto do artigo, a Medioli se mostra com um sorriso tão embevecido que, de fato, ela não percebe as asneiras que escreve, ou simplesmente subestima os leitores.
Mas eu sempre faço o favor de lê-la.
No seu último artigo, intitulado “Notícia bombástica”, ela fala de uma adolescente que fica em casa sozinha enquanto a mãe trabalha.A mãe, atarefada, é impossibilitada de voltar mais cedo para o lar. Durante uma reunião, o telefone toca e a filha do outro lado diz que jogaram uma bomba em sua casa. A mãe, desesperada, deixa a reunião de lado e ruma para o “salvamento” da filha. No caminho a mãe liga para a casa, mas ninguém atende, liga então para a filha e o telefone só dá ocupado, liga para os vizinhos, para a empregada do avô, para o cunhado, para a polícia, e continua seguindo em direção ao “salvamento”.
No final a mãe chega e descobre que não passa de um transformador- “aquela coisa preta e enorme que fica no poste” ( descrito assim mesmo no artigo)- que estourou.
Por coincidência ou não, Laura Medioli é casada com Vittorio Medioli, que é proprietário do Pampulha e que, na edição anterior do Pampulha foi presenteado com um artigo de sua mulher, onde ela falava de seu amor pelo proprietário do jornal que escreve.
Laura Medioli também escreve no Jornal O Tempo às terças-feiras, que por coincidência é também de propriedade de Vittorio Medioli.
No artigo de hoje, 20 de setembro, intitulado “Meus Bichos”, a Medioli conta o gosto que tem pelos animais. Num trecho do artigo ela diz que não tem nada mais “bonitinho” que um filhote de sapo pulando na nossa mão. Tentei assimilar beleza com um girino pulando na minha mão e não obtive sucesso.
Um conselho que dou a Laura Medioli é que deixe de escrever nos jornais do marido e dedique seu tempo cuidando de animais, ou escrevendo contos infantis, já que não vejo interesse algum de uma criança por um jornal. Aconselho também que as crianças, ao invés de ler Medioli, lêem Monteiro Lobato.
O pobre não é mesmo “ininteligente”, ele só é poupado de mais uma desgraça.
Escrito por Leonardo Cattoni às 13h51
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