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O Recanto de Gal
Depois de saltar o muro, aqui estou.
O porteiro, que presenciou a cena cômica, veio em minha direção. Antes que ele me interpelasse eu havia dito que o Recanto era meu e que alguém havia trocado a fechadura.
Ele, com um cigarro na mão esquerda, sorriu e disse: “Isso aqui é propriedade do Sr. Uol e tu não pagaste a mensalidade para usufruir." Ora ora! Paguei com insônias, com palavras vazias e contextos órfãos. Sobre usufruir, eu desfruto tudo isto, citado aqui, no absoluto silêncio e pausado. Não sou egoísta!
O “Meu Nome é Gal!” de Roberto e Erasmo, com a voz de protesto que não cessa em minha cabeça, me deixa agora, gratuitamente, protestar para as paredes.
Que o “Meu Grito de Alerta” viaje o mundo em silêncio, sangrando, comemorando, com o desejo expirando e com rasuras definitivas.
Vou tomar do Recanto os meus filhos e deixá-los na companhia dos que virão. Saciarei a minha esposa infiel com herdeiros lúcidos, e retardados com o passar do tempo.
A atualidade não é a escrita derramada aqui, mas sim o pensamento que fecunda tudo que aqui ainda não foi registrado. Como registrar a atualidade?
Um blog agreste. Um blog desfalecido. É assim que vejo o Recanto agora. O Recanto que me abandonaste por orgulho, por nada ser sem mim.
“A vida é curta e a arte longa”? Isso é coisa de latino-americano que não sabe venerar a arte por ser um mortal e se preocupar com a morte, crendo que a vida é tão curta que, nem quinhentos anos são capazes de sorver a simplicidade da coisa que é mais simples quando compreendida.
A linguagem incompreensível de Guimarães Rosa é uma lucidez completa que ninguém absorve se crer que aquilo que o autor transmite é aquilo que ele ( leitor ) já tinha a ciência de ter no teu íntimo. A coisa só é profunda se fizermos uma descoberta consciente do inconsciente.
Diadorim era uma mulher, assim com “Gal” é homem. Assim como esse texto é um vácuo no meu recanto acessível.
Jamais abandonarei os fiéis de meus devaneios!
A minha incapacidade de enriquecê-los com a herança que carrego é a minha maior riqueza.
Dedicado à Mazar, findando com isso os puxões de orelha.
Escrito por Leonardo Cattoni às 14h21
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O Fim para o Começo
Começo diferente. Talvez transcrevo aqui o fim, o meio ou até mesmo o início, o feto que virou homem ou mostro, ou homem monstruoso que virou pó.
“A única realidade é aquela que se contém dentro de nós, e se os homens vivem tão irrealmente é porque aceitam como realidade”.
Talvez nada mais seja paralelo, talvez percorra mesmo em meu sangue.
Entreguei-me de corpo e alma, dei o que muitos queriam, e na verdade era o que eu queria, e esse me foi doloroso, porque tudo que eu queria eu dava e não conseguia em momento algum dar a mim mesmo.
Farei abstinência do mundo virtual porque me é necessário, porque preciso de alguma forma entrar pra o lugar que o sangue exala cheiro, se torna matizado e transborde para o exterior na busca do estancamento.
Lutarei, mesmo que sem arma, inerme, sabendo que a pior luta é a consigo mesmo, mas lutarei com todo fervor. Buscarei luz, claridade entre as montanhas, observarei a pele mudar de tonalidade, provando toda a verdade.
Já ando há muito tempo sem norte, sem saber quem eu sou, mesmo sabendo que é um caminho eterno para essa procura, essa busca sem descoberta.
Procurava no “Soueu!” aquilo que não encontrava em mim. Por ele ser tão medíocre, simples, me veio à vergonha, o pudor de sê-lo. Escondia dentro de mim mesmo, e sem qualquer objeto para se pôr de trás, ficava quieto, silencioso, ansioso, medroso. Senti um pouco a aspeza da solidão, o alívio de não me encontrarem, no entanto, escondi para ser achado e nunca, nunca fui.
A “sala” já estava interiorizada, já ia para os sonos mais profundos e percorria no cotidiano sem sombra, vagando em pensamentos. Em qualquer lugar que meu corpo estivesse podia a qualquer momento chegar de surpresa alguém daquele mundo em meu pensamento. Devaneava no interior tudo que ali se encontrava.
Com laivo de ironia o “Soueu!” teclava verdades, soluçava verdades, transpirava verdades e nada ganhaste a não ser dor. Agora busca o alívio, a fuga da dor, procurando campos para correr e suar, para exalar mal cheiro.
Talvez lá fosse a tertúlia, o canto ao confinamento, a cura da solidão. A verdade é: lá era um mundo como outro qualquer, que continha dor, tristeza, ódio, felicidade, amor, paixão, desejo, pecado, medo e decepção.
Talvez a Mari fosse o último desejo de Leonardo, o último dos últimos, o fim para o começo. Talvez ela fosse a mulher a dar todas as luzes, gerar o que em nele não se podia. Ser mãe de seus filhos, ser mãe dele(de mim)mesmo, ser minha guia e ajudar-me a encontrar-me. Talvez ela fosse, mas já não é. Coloquei-a no altar por diversas vezes e não me via nela. Talvez a outra, a María, fosse a amante, o ser tocável com todos os pecados, todos os desejos de um homem encharcado de hormônios. A Mari era a ternura, era intocável pelas minhas mãos sujas e criminosas, era a mãe que queria ser devorada pelo filho mais novo, que desejava assassinar o pai para deitar com a mulher do pai, com a mãe que já não era mãe. Eram algo distintos e unidos por mim, por pura satisfação. O Demônio e o Deus, o espírito e a carne, o luminoso e o sombrio, o pecaminoso e a pureza. Para o “Soueu!”era apenas uma e não duas.
Escrito por Leonardo Cattoni às 13h45
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...Cavei a Mari profundamente em busca da María e não encontrava. Talvez estava bem guardado, talvez não era o máximo da profundidade, mas desisti e voltei com a alma, com as mãos abanando. Talvez a Mari não era nada além daquilo mesmo, mas creio que não, a Mari tinha segredos à nunca serem desvendados por ninguém, talvez nem por ela própria, mas não deixava de tê-los, e os tinha bem escondidos, fazendo-os prisioneiros do que achava ser pecado. Eu (Soueu!) era o seu pecado!
Todos seguem um caminho, todos tem um caminho a seguir, mas nunca sabia qual rumo a Mari seguia e queria, já a María deixava explícito o que queria e no entanto, não a entedia. A verdade é que estavam no mesmo barco, mas cada uma remando para lados opostos e querendo talvez chegar no mesmo destino.
Não tenho em poder a receita, aliás, não tem receita para tais sentimentos. Vai nascendo, brotando e tornando real no vaso imaginário sendo algo único. Prefiro assim deixar todos os frutos envergarem o pé e caírem já podres(mortos).
Não é com estima que vejo toda verdade trajada de mentiras de seda. O “Soueu!” foi um mendigo de rua subestimado pela sociedade virtual, mas que na verdade obtinha o que nenhum tinha: Princípios em tudo, inclusive nele próprio.
Nada ensinou, porque não era de seu feitio. Não tinha dom de ensinar, mas era um excelente aluno e sugou o que achava útil, de grande valor. Também desperdiçou valores e caçôo de outros. O “Soueu!” por muitas vezes se achava supremo, superior e em outras, tolo, débil e incapaz. Assim também sou eu, aliás, eu sou o “Soueu!”, mas o “Soueu!” não me é. Se posso criar o que sou e o que não sou, como não me achar melhor que o Leonardo ou do que o próprio “Soueu!”?
Me senti por várias vezes desnudo sendo “Soueu!”, mas em momento algum sentir-me inválido, envergonhado e descrente. Era apenas um instante de medo e solidão, logo o “Soueu!”, que buscava a cura da solidão ali! Senti também ilícito, mas que me era bobagem tal sentimento, porque não haveria sequer uma lei a de não ser o “salve-se quem puder” e volte para o reduto deixando a fantasia no varal de fora de sua casa.
Confesso que dormia trajado de “Soueu!”, acordava de “Soueu!”, escova os dentes, tomava banho, alimentava e se relacionava sexualmente de “Soueu!”.
Deixo aqui, nesse texto, o “Soueu!” e me torno ser Leonardo novamente, mesmo que me haja sofrimento com isso, pois o “Soueu!” se esvaziou, derramando em mim todo o seu passado e toda a sua experiência que inveja os que tem cem anos ou mais. Faço daqui o varal de fora da casa, a lixeira do rascunho que poderia se tornar uma bela estória, mas que por preferência e até mesmo egoísmo, assassino tudo e o guardo comigo mesmo eternamente.
Fim
Escrito por Leonardo Cattoni às 13h44
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Mazar e o Mundo Novo
Foi em alguma madrugada, onde a insônia possuía-me, fazendo a minha presença ser menosprezível para a cama quente, amassada pelo meu corpo que a moldava de forma a encaixar-me, causando um certo desconforto, que a conheci.
Não me lembro bem qual o dia, mas lembro-me da situação. Apesar dos olhos não se cruzarem, de modo a não causar nenhuma suspeita, fui jogando palavras de forma a atraí-la e ao mesmo tempo divertir-me.
Não senti nenhum desconforto e prestei atenção na sua timidez. A interpretava com perícia, via as frases que suplicava algo que até o momento não entendia. Naquele momento pude perceber que viraria um novo integrante do “mundo luminoso” e deixaria o “sombrio” dormir no leito que não me aceitava e que agora, sem vingança alguma, também não mais o queria.
Apesar de ter pouco mais de cinco meses esse primeiro encontro, parece que o eterno, o infinito, se torna algo de significado falso, comparado com o tempo desde o primeiro encontro até o dia de hoje. Posso garantir que a conheço há milhões de anos e que a sua presença me faz desconhecer-me cada vez mais.
Sempre menciono a minha infância, porque parece que não a tive, e hoje parece que sou uma criança perdida no corpo de um adulto. Poucas foram às vezes que me perdi dentro da infância me sentindo criança. Observava os adultos e achava que, por eles ignorarem a minha presença por habitar num corpo tão pequeno e frágil, a “coisa limitada”, o pequeno e o frágil fossem eles e não eu. Admiravam-me por achar que não tinha percepção alguma sobre as suas tolices, os seus erros.
Lembro também que sentia mal por fazer orações antes de dormir, só por fazer. Por ter a certeza que era apenas por descargo de consciência as rezas antes de procurar um sono mais justo e tranqüilo. Comecei a deixar o “Pai-Nosso” e a “Ave Maria” ser algo apenas pro dia seguinte, quando antes de assistir a primeira aula no colégio, as irmãs nos obrigavam a orar. Tudo mudava, ao contrário do da cama, eu rezava com louvor para que a oração não acabasse nunca, pois preferia orar do quê assistir as aulas. Sabia de cor e deixava apenas os lábios movimentando, deixando o pensamento voando e fugindo pra outro lugar.
Me pegava brincando de castelos, cidades e casas montadas sobre minha cama, era nesse momento que eu tinha a certeza que era uma criança e que nunca pararia de ser uma. Trancava-me no quarto para ninguém assistir àquele episódio vergonhoso para a lucidez que restava em minha alma naquele momento. Sentia vergonha daquilo tudo, ameaçava destruir tudo para satisfazer a ‘moral’ proibida daquele corpo, mas o prazer cobria tudo e continuava ali, ajoelhado no chão, com os brinquedos na mão.
Também me lembro das articulações e ensaios de fronte a um espelho, tentando me igualar, nivelar aos demais, mas confesso ser um péssimo ator e além de sentir um pássaro fora do ninho, provava aos outros que meu ninho estava longínquo e inatingível por qualquer outro.
Engraçado isso tudo, pois me lembro de ter lido em “Ilusões” uma pergunta sobre esse mundo que não pertence a dois seres, mas sim, a um único ser. “Quantas pessoas moram no seu mundo?” A minha resposta, antes de ler a explicação do autor veio de imediato: “Apenas eu e mais ninguém!”,e ele continuou: “Pois só você acorda em uma determinada hora, só você enxerga as coisas como quer. Ninguém vive o que você vive.”
Sim, ele estava certo e até o então me encontrei naquele personagem, me vendo naquela confissão, como se eu fosse o autor daquilo, que ficava guardado em mim, achando que ninguém fosse entender-me.
Aquela criança habita em mim até hoje e por isso talvez acredite mais na criança do quê no adulto e jamais subestimo uma...
Escrito por Leonardo Cattoni às 13h43
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...A relação disso tudo com ela é simples: ainda tenho algumas visões daquela criança, ainda sou uma e encontrei com outra, que também habita num corpo de adulto, sendo um inquilino responsável e uma administradora um tanto profissional.
Ela foi me conduzindo a um outro mundo, pelo qual não conhecia. Sem sentir frio, calor, sem ter água ou ar, lá estava, pronto para ouvi-la, como nunca ouvira ninguém. Por ser professora já carregava em si o dom de ensinar, de impor uma devida atenção que meus olhos e mente não a traía. Era um mundo que só habitavam letras carregas de sentimentos, com a credulidade lavando o meu lado ateu e fazendo-me confessar de toda imperfeição cometida por mim. Menti por diversas vezes para mostrá-la, por um outro caminho, talvez um caminho mais limpo, mas claro, mais belo, a verdade. Curvei-me quando a vi jogando em mim, de forma suave, verdades que não aceitava, mas que no fundo do fundo da minha alma, traía-me com as mesmas verdades que de alguma forma me machucava e tentava salvar-me de todas as trevas.
O culto a Mazar me transformou, iluminando o mundo sombrio, escuro e cheio de incertezas. Não a comparando com ninguém, pois não tem como, já havia por diversas vezes adorado pessoas sombrias para muitos. Sempre freqüentava lugares que para a minha família e sociedade, era algo proibido para um rapaz como eu, que exalava bom cheiro, trajando boas roupas, cabelos limpos e macios. Encontrava-me por diversas vezes, sentado em bares com alcoólatras, com senhores descalços, outros com o corpo que exalavam um cheiro forte, outros sem dentes e que na bagagem de teus espíritos carregavam o que nem um outro de um mundo paralelo carregava. Aprendi com eles o que jamais aprendi no meu lar, no reduto que não mais pertencia ao bom moço. A última vez que estive em Salinas, me tornei íntimo de um senhor e conversava com ele freqüentemente. Ele aparentava aproximadamente setenta anos, e já havia sido preso, pagando com doze anos de cadeia por roubo e tráfico. Numa madrugada dessas que não me recordo bem o dia, entrei na sua casa e fiquei horas conversando com ele sentado numa mesa suja, com uma garrafa de café, e guimbas de cigarros. Confesso que por um instante senti receio de ali estar, apenas eu e ele, já que sabia da sua fama, de seu passado. Mas foi fitando-o e escutando-o, como se estivesse hipnotizado por um olhar sofrido e cansado que aprendi mais uma lição: Todos os atos do ser humano, seja lá quais, tem motivos. Ninguém é totalmente culpado. Talvez a vida fosse, talvez..
Somava mais isso para a repugnância dos tolos da cidadezinha à mim.
Nada mais me intimidava, nem mesmo a condenação de uma sociedade que parecia se distanciar de mim cada vez mais. Desejava encontrar com a Mazar, pois só ela me entendia e aprendia comigo o que o passado a fez esquecer.
Descobri com ela um outro amor, um que não fosse tão carnal. Queria apenas o cheiro dela ao meu redor e o calor percebido pelas minas mãos, nada mais. O sexo estava em um outro plano, num lugar que não nos pertencia até o então, embora os desejos caminhassem com a gente, mas era algo a executar por último, com mais calma, mais cautela, com mais tempo. O tempo sempre era algo pequeno, reduzido pelo desejo infinito.
Descobri a beleza original e deixei de usar a “dança das borboletas” para a conquista.
A perplexidade foi desaguando, e mesmo assim o sentia, e isso era apenas mais uma etapa a encarar com fervor.
Apesar de não encontrá-la em nenhuma, continuarei buscando-a em outro corpo e viverá comigo eternamente, como vive a infância.
Termino com essa frase: “A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir um mundo!”
Escrito por Leonardo Cattoni às 13h42
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Não se Pode Revelar o que Sinto, quando "Revelar" Traduz MAZAR
Já faz quatro dias que estou gripado e sem ânimo pra nada. Pra falar a verdade é alergia dessa mudança de tempo.
Tive a certeza que não estaria aqui hoje, que não postaria nada, já que ando também sem inspiração alguma. Tive a certeza que a certeza já não era certeza, que não se pode ter certeza quando o sentimento que a cega é incerto. Enterro todas as certezas! Prova disso foi quando deparei com a “inspiração” sobre a mesa de vidro da sala de jantar. A inspiração vinha de São Paulo, de dentro de um envelope, que me alimentou, que me curou por algum instante, que me fez vim até aqui e publicar nesse blog a felicidade que toma conta de mim nesse momento, mesmo sabendo que não terá sucesso tal publicação.
As verdades pertencem aos que acreditam possuí-las e que seguem o caminho sabendo a direção do norte, sabendo o destino, mesmo estando coberto de névoa o caminho. A obscuridade é clareada pelo instinto, pela verdade que carrega consigo. Não pertence a mim, nem ao João Ubaldo, como mencionaste na carta, a verdade que a personagem “doente” carregava. A verdade era dela e as palavras talvez minha, ou nossa, mas não aquela verdade que já tinha proprietária.
O cheiro da verdade impregnou em mim, está em minhas mãos nesse momento e já o guardo dentro de mim eternamente. Agora a busca é do tato, dos outros cheiros. Esse cheiro que impregnou em mim é o cheiro da verdade, é a comprovação da verdade, da existência da mulher que condena o inocente, que o tira noites de sono, que derrama conscientemente lágrimas na sua alma, na sua face, para em seguida fazer desse acontecimento uma espécie de troféu sem a existência de um pódio. Chorei quando li “as frases tortas”, chorei como chora um inocente condenado, chorei pela impotência de nada fazer, de não possuí-la naquele instante. Devorei tudo sem deixar resto de letra. Busquei o odor com as narinas entupidas e levei-o dentro de mim, guardando num lugar seguro, onde será sepultado com o corpo que parece não me pertencer agora.
Ler; “minha alma foi sua” foi mais uma comprovação do que o “sexto sentido” já havia me apontado. Esse “sexto sentido”que sem querer tu me ensinou a dominá-lo como uma arte-marcial, já não pertence mais aos dotes femininos.
O papel pode perder por culpa do tempo, mas não há tempo algum que me toma as lembranças que foram decoradas, arquitetada por Mazar.
A árvore está em algum canto, gerando alguma sombra e nos esperando.
Até ela! ( Escrito em 11/04/05 )
Escrito por Leonardo Cattoni às 13h41
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Declaração de Brizola Lida no Jornal Nacional
Abaixo, segue a íntegra da declaração de Leonel Brizola que foi lida em pleno Jornal Nacional em 1994. A declaração foi um direito de resposta conseguido por Brizola na justiça.
"Em cumprimento à sentença do juiz de Direito da 18ª Vara Criminal da Cidade do Rio de Janeiro, em ação de direito de resposta, movida contra a TV Globo, passamos a transmitir a nota de resposta do sr. Leonel de Moura Brizola.
"Todos sabem que eu, Leonel Brizola, só posso ocupar espaço na Globo quando amparado pela Justiça. Aqui cita o meu nome para ser intrigado, desmerecido e achincalhado, perante o povo brasileiro. Quinta-feira, neste mesmo Jornal Nacional, a pretexto de citar editorial de ‘O Globo’, fui acusado na minha honra e, pior, apontado como alguém de mente senil. Ora, tenho 70 anos, 16 a menos que o meu difamador, Roberto Marinho, que tem 86 anos. Se é esse o conceito que tem sobre os homens de cabelos brancos, que os use para si. Não reconheço à Globo autoridade em matéria de liberdade de imprensa, e basta para isso olhar a sua longa e cordial convivência com os regimes autoritários e com a ditadura de 20 anos, que dominou o nosso país.
Todos sabem que critico há muito tempo a TV Globo, seu poder imperial e suas manipulações. Mas a ira da Globo, que se manifestou na quinta-feira, não tem nenhuma relação com posições éticas ou de princípios. É apenas o temor de perder o negócio bilionário, que para ela representa a transmissão do Carnaval. Dinheiro, acima de tudo.
Em 83, quando construí a passarela, a Globo sabotou, boicotou, não quis transmitir e tentou inviabilizar de todas as formas o ponto alto do carnaval carioca.
Também aí não tem autoridade moral para questionar. E mais, reagi contra a Globo em defesa do Estado do Rio de Janeiro que por duas vezes, contra a vontade da Globo, elegeu-me como seu representante maior.
E isso é que não perdoarão nunca. Até mesmo a pesquisa mostrada na Quinta-feira revela como tudo na Globo é tendencioso e manipulado. Ninguém questiona o direito da Globo mostrar os problemas da cidade. Seria antes um dever para qualquer órgão de imprensa, dever que a Globo jamais cumpriu quando se encontravam no Palácio Guanabara governantes de sua predileção.
Quando ela diz que denuncia os maus administradores deveria dizer, sim, que ataca e tenta desmoralizar os homens públicos que não se vergam diante do seu poder.
Se eu tivesse as pretensões eleitoreiras, de que tentam me acusar, não estaria aqui lutando contra um gigante como a Rede Globo.
Faço-o porque não cheguei aos 70 anos de idade para ser um acomodado. Quando me insulta por nossas relações de cooperação administrativa com o governo federal, a Globo remorde-se de inveja e rancor e só vê nisso bajulação e servilismo. É compreensível: quem sempre viveu de concessões e favores do Poder Público não é capaz de ver nos outros senão os vícios que carrega em si mesma.
Que o povo brasileiro faça o seu julgamento e na sua consciência límpida e honrada separe os que são dignos e coerentes daqueles que sempre foram servis, gananciosos e interesseiros’.
Escrito por Leonardo Cattoni às 13h38
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O Orkut é o que não há
É muito bom escrever sobre coisas que gostamos, sem obrigação, sem censura. O texto fica fácil e direto, escorre de nossos pensamentos, deixando o sacrifício da embromação de lado.
Irei falar do Orkut. Para muitos Iogurte, pra mim, na maioria das vezes, também. Às vezes o Iogurte é light, com 0% de açúcar, de gordura, de sabor, mas em outras é calórico e o melhor, não engorda.
Os "lights" são aqueles que não simulam nada. São pobres mesmo, por natureza e querem nos infectar dessa pobreza com verdades que nos ferem tanto. Os dissimulados são mais suntuosos, mais engraçados, mais fiéis à pátria, parecendo os kamikazes asiáticos. Por isso chamo-os de "orkutários". Brasileiro sem as virtudes do mascote Zé Carioca não é brasileiro. Brasileiro sem bunda, sem samba no pé, sem futebol na cabeça, sem malandragem na alma, sem ignorância, sem pobreza, sem a essência negra não é brasileiro. É como o orkutário e seus inúmeros adjetivos de um verdadeiro natural do Orkut. A dissimulação é a única herança deixada pra nós, orkutários.
Esses dias eu resolvi pagar o pedágio com uma comunidade infiel. A verdade impregnada na discrição da comunidade criada por mim foi ignorada por muitos, e outros por serem pobres de espírito aderiram ao espaço solicitado por mim como um divã. Deveriam existir divãs públicos, gratuitos, onde o cidadão não paga nada, mas também não abre a boca. Não sei se a entrada deles na Sem Identidade foi por estima a minha pessoa ou se realmente foram vistos diante o espelho. Aos que negam a "participarem" da minha comunidade, parabéns. Deixa aquele espaço que limitei para os dignos de lástima que não servem nem pra descolar uma mentira qualquer para calçar o "salto alto", aumentando o tamanho de seu ego. Poderiam criar nessa hora um circo gratuito, onde as cadeiras poderiam ser ocupadas sem preconceitos por ser palhaçada gratuita. Mas nada é gratuito, e o "Bad, Bad" prova isso.
Esses dias eu ameacei tirar da minha lista a comunidade "Sebo". Entrei realmente com a finalidade de encontrar algum livro bacana, algum livro raro e nada. Mas pensei e vi que o melhor é deixar lá, parado, enfeitando. O pior são membros de comunidades que nos enchem de mensagens indesejadas. É por isso que deleto tanto "friend" e comunidade. Eles deveriam ficar imunes de qualquer perda de tempo. A melhor comunidade é o "Ócio Criativo", onde ninguém manda mensagem, pois eles gastam tempo com coisas realmente produtivas.
É axiomático o uso adequado ou inadequado das comunidades. No final é tudo enfeite, mostruário de toda impotência incurável, afinal, os orkutários são patriotas daquilo que tanto os alimenta, feito os Kamikazes.
Escrito por Leonardo Cattoni às 13h36
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Cachinhos de Ouro
Já faz tempo que vinha querendo escrever sobre o Cachinhos de Ouro. Vinha treinando, sem passos, sem ensaios, procurando um jeito de escoar o sentimento gota a gota, usando o conta-gotas, para não borrar o meu blog com pieguices. Digo antemão que sou uma represa que quase não comporta o que deveria, em sua misera função de apenas suportar, reter o curso de água. Hugo faz todos os mares, rios, córregos, lagos, até mesmo poças desaguarem em mim, e me dá o infinito para suportar com imenso prazer. Ele também faz chover no meu lado sertão. Hugo cabe em mim, em meu infinito, que guardo inteiramente pra ele, passando a ser proprietário. Faz-me sempre o esperar para preencher o que a tua ausência fracassa, pois assenta em espaços distantes de mim. Sei que não virá exatidão, porque o que sinto pelo Cachinhos de Ouro se torna aqui e em qualquer outro lugar indescritível, incompreensível talvez para aqueles que não residem em minha alma, mas tentarei sem força alguma, assim como tenta um homem a equilibrar no desequilíbrio de teu medo, escrever sobre meu maninho.
Sou aço fundindo no fogo brando. Sou servo de uma criança de apenas três anos, onde me liberto ao invés de me aprisionar.
O Hugo me deixa sem rumo quando ele não é o meu guia, e quando guia, inocentemente, me leva pra onde quer, sem apontar direção, onde é todo o meu norte. Deixa-me também sem rumo quando no colo, me dá um beijo na bochecha ou mesmo na boca seca e virgem, e côa toda minha insensibilidade.
Transformo-me em um péssimo administrador sentimental e deixo correr por todo o meu território as suas vontades, correndo junto sem ofegar.
Estar com Hugo me faz abster de malícias, dissimulação, de ser adulto, e me sinto criança novamente. São laivos de inocência que limpa minha alma, que me purifica. Mas em outros momentos me sinto um pecaminoso e retenho lágrimas quando encontro com os teus olhos.
Estar com Hugo é estar comigo, é me encontrar sem procurar.
Escrito por Leonardo Cattoni às 13h35
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O Tataraneto do Português
Essas palavras da língua "burrice-preguiça-peseudo-portuguesa"que os internautas andam criando e usando no mundo virtual anda me irritando muito. É que nem quando as pessoas resolvem me chamar de "Léo", achando que já é íntimo, tentando ser carinhoso, passar confiança, aí resolvem escrever milhões deles com acento. Pô, Leo é igual à palavra cu, não tem acento algum e todos escrevem com acento. E é isso que me causa alguma raiva, não a tolice de acharem que são íntimos.
O pior é que as palavras pertencentes ao mundo virtual já estão vazando para o real. Esses dias, vendo um filme no Tele Cine, com legenda, pude perceber que as palavras estavam diferentes, que o português havia mudado. Era "tah", ao invés de "está", "naum" ao invés de "não", isso tudo constava na legenda...putz! Será que num futuro breve encontraremos nos dicionários palavras como: tah, axu, xato, eh, aki, kra, baum, naum?
E as crianças que assistem aos filmes desse canal que visa o lucro, que gera a "escravidão", a alienação, a coisa inculta, como ficam? Sinto pena dos professores de redação nessa hora. Terão que adaptarem? "O alunu naum fez boa prova, mas axu ele um meninu baum. Ass;Tia Maria".
É um suicídio coletivo para estarem na moda, no pódio, na "vitrine". Se bem que não há nada para matar, morrer, aniquilar nessas pessoas. Pensando bem, elas são criadoras do fracasso, da burrice, do conforto que foi fecundada pela preguiça e assassinam letras em busca do comodismo. Merecem um troféu! A língua portuguesa está sendo embelezada de certa forma e não pulverizada. A beleza é tamanha que fico emocionado e perplexo de como a burrice ganhou inteligência e identidade. Já não sei se são de propósito ou se realmente a burrice impregnou no escritor.
Já que comecei falando de televisão, aliás, não, mentira. O que me fez chegar aqui foi a televisão, a indignação da legenda amiga, bacana, bonita, legal, porreta, doidona, d+. Falarei também do novo programa do SBT, onde tem quatro patetas se achando "formadores de opiniões" (assim disse uma amiga ) . Assistam aos 4 patetas! Vale a pena comprar pipoca, cervejas (caixas) e assistir ao show que provavelmente são, não seria taum baum!
Escrito por Leonardo Cattoni às 13h35
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Chuva é de Nanquim
Esses dias uma conhecida me disse que gostava de pessoas inteligentes. Por coincidência ou não, eu também gosto de gente inteligente. Gosto também de dinheiro e de sexo. Se tivesse tanto dinheiro, provavelmente não teria tempo de praticar tanto sexo, ou praticaria tanto "sexo" que ficaria novamente sem dinheiro. Mesmo o sexo, desses outros dois que citei, sendo o de mais fácil acesso, ele é ignorado pelas burguesas que preferem desfilar em galerias, voltando para a casa exaustas e com muitas sacolas. Comprar é um orgasmo e não sou eu que estou falando isso, a "medicina" já provou. E ao mesmo tempo, de tão fácil acesso e de ser o lazer mais barato, quase sendo um trabalho braçal "bem" remunerado, o sexo é consumido brutalmente pela pobreza, que é maioria, assim como a burrice, a desinformação; empobrecendo mais o mundo. Para algum policial que prefere a adrenalina do quê o sexo sem compromisso, o lazer mais "barato" ultimamente é matar inocentes nos morros cariocas.
A informação sem parcialidades está sendo exterminada, esmagada pela inteligência artificial. A busca da alienação é inconsciente na maioria das vezes. Somos alimentados por ela a toda hora. Não sei mais distinguir propaganda da não-propaganda.
Nunca se houve tanta comercialização de alienação, que hoje, para piorar, ou mesmo facilitar, anda informatizada. A burrice virá como uma avalanche e a intelectualidade, extinta. Essa minha conhecida não estará lá pra acabar infeliz.
Uma outra conhecida minha disse esses dias que irá mudar o mundo. Eu só não acredito na Super-Mulher que tem em sua volta kriptonitas. Sempre tem "heróis" adeptos ao adesismo (esse é o pior) e os que dizem adeptos a nada ( sem estrutura ). Não gosto desses atos heróicos que traduzem toda a burrice e ingenuidade. No final morrem como "indigentes", sendo enterrados sem nenhum verde e amarelo cobrindo o ataúde.
Não quero salvar o mundo de nada. Eu quero é me salvar do mundo. Gostaria sim, de ver um mundo mais justo, mais igualitário, mas não quero ser o herói de nada e sei que não terei essa visão. Para isso existem pessoas mais preparadas do que milhões de "Leonardos" junto.
O desinteresse de tudo que envolve a coletividade é muito claro. A empatia é um demérito para uma sociedade que sempre foi individualista.
A frase impotente: "Juntos venceremos", não cola mais. Essa frase só serve para candidatos em cima de palanques. A pobreza é maioria! A Guerra Civil seria uma boa idéia para os desinformados, já que a maioria é mal informada e sairia facilmente derrotada. É só lembrar das greves, que sempre foram frustradas.
Os comunistas ( camaradas ) nunca comeram criancinhas, os banqueiros nunca emprestaram dinheiro para os que realmente necessitam e a alienação nunca foi tão comercializada como agora. Até o Ministério da Cultura patrocina a alienação. A alienação está em alta.
Só falta a alienação desfilar no próximo São Paulo Fashion Week, sendo tendência da próxima estação.
Escrito por Leonardo Cattoni às 13h33
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Mais um Recorde
Mesmo com resquícios de uma gripe, eu vou bem. Estou feliz pela França. Mais uma vez os franceses fizeram o que deveria. Mas não quero falar de nada disso. Estou exausto. Quero falar de outras coisas. Gostaria de ter ido à Parada Gay pra ter o que falar. Para uma pessoa besta feito eu, totalmente atrasada ( se isso for atraso! ) seria fascinante tudo aquilo, como Disney para uma criança. Acredito que ficaria aqui horas, resumindo e resumindo para o texto caber no meu blog. Falaria da passeata sob o lema "Direitos Iguais: nem mais, nem menos", onde reuniram mais de dois milhões de pessoas. Curiosos, crianças, mulheres, homens, gays, simpatizantes e idosos. Mas não fui e, no entanto, não tenho o que comentar caso não me submeter antes a uma pesquisa. Queria vivenciar aquilo tudo pra expor pra todos vocês o que é notório pela TV. Os gays são bem organizados, cativantes e rendem votos. Uma pena não serem todos paulistanos. Talvez Marta estivesse no lugar do Serra fazendo o que mais sabe fazer nos quatro únicos dias de seu mandato, no 'Gay Day'. A Parada Gay de 2005 serviu de palanque para a campanha eleitoral da ex-prefeita de São Paulo ao governo do Estado que, obviamente foi negado pela Marta.
A maioria dos participantes da Parada Orgulho GLBT 2005 eram mulheres. Mães com filhos, mães com bebês nos braços ou nos carrinhos, mães de gays, mulheres sozinhas, todas estavam lá, apoiando o orgulho de conviver com gays, apoiando a luta pelo fim do preconceito. Também teve aquelas que foram apenas para participarem da farra, mostrando que são 'moderninhas'.
Eu não sou 'moderninho', não gosto daquelas músicas agitadas, principalmente da voz intragável da Xuxa, que foi uma das homenageadas, não gosto de multidão e, portanto, fiz bem em ficar aqui, com a minha gripe. Também não me interessei em acompanhar pela TV o que se pode ver nas ruas, não tão concentrado como o da Paulista.
A nona Parada Gay foi recorde. Superou a de São Francisco e a de Toronto. Estamos sempre batendo recordes inúteis. A ex-prefeita disse no ano passado uma coisa certa. "É o evento que mais reúne sem precisar fazer rifas ou distribuir prêmios, como carros." Já o atual prefeito, o José Serra, não foi nem aplaudido e preferiu não apoiar o projeto da união civil. Uma festa gratuita, com atores globais, pessoas do mesmo sexo se devorando e ainda na Paulista não tem como ser um insucesso. É claro que atraí curiosos e patrocinadores, como Volkswagen e outras, até a agência África, do Nizan Guanaes já desentendeu no passado com a diretoria da Associação da Parada por causa de um espaço publicitário. A prefeitura fornece todo apoio logístico para a realização do evento, como aconteceu no ano passado, na gestão da Marta Suplicy. Como eu disse: os gays rendem votos, são alvos das grifes, dos comércios. São extremamente consumistas e valem qualquer investimento.
Deveria haver patrocínios de grandes multinacionais e o apoio de governistas para passeatas bem organizadas para o MST, para as mulheres vítimas da violência doméstica, para os desempregados, para os aposentados que são vítimas do Estado, enfim, deveria priorizar o que não é simplesmente orgulho e sim vergonha para um país que sempre priorizou o que de fato nunca nos beneficiou. Só nos sobram ressacas no dia posterior de um jogo de futebol, de um dia de folia no carnaval e de um orgulho em ser gay. Não sinto orgulho de ser homem, sinto é vergonha de ser brasileiro, sem ser malquerente com os gays.
(Escrito em 20/05/05)
Escrito por Leonardo Cattoni às 13h31
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De Mim Minguarei no Mingau
Deu vontade de fazer um "Supermercado Leonardo" ( Plagiando Millôr Fernandes ). Uma publicidade sem nenhum artefato, mas com muita criatividade humana pra tanta coragem, ou vice-versa. Tudo muito pobre para os dias atuais e pra toda geração. Meus ancestrais foram mais ricos.
Minha origem é o sexo. Minha morte é certa. Meu caminho até ela, incerto. Esse caminho começou em 23 de janeiro de 1980, na cidade de Curitiba/PR. Assim me dizem. Mas creio que foi bem antes, já no útero. Pelos meus cálculos, o único acerto disso tudo foi Curitiba, que foi outro erro. Poderiam ter andando um pouquinho mais para a esquerda e esperar os nove meses, ou chegar já no nono. Seria outro erro. Sou prematuro. "Não, não sou argentino, sou brasileiro". O erro já nasceu daí, e eu nasci dele. Sou errôneo! Quando eu era pequeno de corpo, me sentia um passarinho fora do ninho, mas o ninho ficou sozinho e eu fui pra lá. O caminho até aqui não foi longo, nem tampouco curto. Percorri tudo sozinho, e continuo, sem nenhuma pressa.
Sei fazer inimigos, mas confesso não saber dos ingredientes pra chegar ao resultado cabal. Pão de queijo sem queijo e polvilho, mas de invejar toda Minas Gerais.
Fui recém-nascido muitas vezes e talvez volte a ser mais vezes. Sou criança até hoje e não me conformei em ser adulto. Adulto fedia. Já não tenho o mesmo olfato de antes. Fui criado e hoje já posso ser criador. Tentarei não repetir o erro. Até lá eu encontro sêmen na farmácia.
Toda besteira que cometo já não tem conseqüência. A conseqüência maior vem se não cometê-las. Tudo é fruto desejado do inconsciente.
Manifesto o oposto para não mostrar meu avesso. Sou ateu distante da doença e da tragédia. Diante eu sou devoto e peço uma ajudinha pra não me chamarem de Deus.
Sou pista de pouso de toda perplexidade perdida no ar.
Chamo Leonardo pra ser distinguido dos que chamam José, Pedro, João. No final até Maria pode ser Leonardo.
Sou soberbo apenas de mim. Do resto, sou modesto trajando vaidade.
Sou feliz porque conheço a infelicidade de não ser.
Sou nostálgico, e do futuro espero apenas a morte. Prefiro não ter morte lenta, já que sou nostálgico. Pediria mais cinco minutos para a morte e quando o despertador tocasse, morreria com saudades daquele barulhinho que hoje me irrita.
Acredito mais no Não do que no Sim, e se escutar "não sei" mudo de idéia e passo então a acreditar no Sim.
Ando em pé, mas gosto mesmo é de voar deitado. Sou filtro de todo pensador, transformando a melhor parte em resíduos.
Esquivo de tudo que me adula pra não dar satisfação. Desconheço o fiel e me encontro no leal. Sou compassivo até alguém me mostrar o que é. Serei sempre!
Quando chegar onde quero, escrevo o derradeiro sem tabique da construção inacabada. Pode ter a certeza que nunca lerão.
Tudo isso é de somenos importância. Inclusive pra mim.
Escrito por Leonardo Cattoni às 13h29
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Carta de um Amigo
Leonardo;
Desgraças vêm me acontecendo. Sei que ao começar ler este deitará no leito e fixará com a desfaçatez estampado na face, apenas na face, que já é de costume.
Escuto A Media Luz de Gardel, presente de um outro amigo e despejo aqui os males que vêm me acontecendo. Calma! Lerás!
A depressão me atinge. Só pode ser. Não há como ser outra coisa. Pensava que nunca seria atingido por essa doença de burguês.
Já não vejo a menor graça nas grandes coisas. Não existem grandes coisas para mim. Nem cama desejo. Guardo até hoje na mesma lapela uma cartilha que ganhei de minha tia, com as palavras do senhor. Nunca li e nunca me interessei. Lembrei de ti, de tuas palavras sobre quaisquer religiões e dei-me por rir. Será que encontraria cura em alguma delas, Leonardo? Será? Já escuto a tua resposta inundada de sarcasmos e deixo a cartilha no mesmo lugar.
Nada tem valor, nem mesmo a vida. O pior de tudo isso são as mulheres. Elas invadem todos os espaços de meus pensamentos, mas não ganham minha alma. Tentam laçá-la, mas não conseguem. Sei que uma hora dessa pensa, diz até em voz alta que ninguém nos toma a alma. Pode ter alguma razão.
Esses dias eu escrevi para uma delas. Uma em que fui apaixonado. Gastei quase tudo para não restar sequer rastros de uma dúvida a ela e ela não me compreendeu. Analisou a escrita como um investigador e comentou cada parágrafo, deixando claro que realmente não me compreendia. Errou tudo! Disse-me que vivo analisando-a, mas todas as suposições dela são apenas suposições.
Até os trotes que recebeu crê firmemente que foram extraídos de mim. Ou seja, ela quem vive me julgando. Não tento recuperar nenhum esforço de minha periclitante altivez, por isso fico neutralizado. É melhor assim. Como chama essa doença? Vive com ela, não é mesmo?!
Uma outra pelo qual pensei em me entregar de alguma forma e o fiz és casada. Tens até um filho. Não sei o que se passa com ela, mas creio que sofre por conta da situação. Deve reter lágrimas ao deparar com algo que traz recordações minha.
Estou imune a qualquer sofrimento dessa espécie. Imagino-a deitada sobre o marido num leito, desnuda e suada. O suor é mais pelo esforço de algo contra si do que pela prática de qualquer outra coisa pela tua própria vontade. Mas não sinto nada. Deve suar pelo nervosismo também. Creio nas mãos frias e úmidas, apenas. Uma aflição que deve contê-la naquele momento e em outros longe do leito, do marido.
Estou mesmo desvencilhando de tudo isso. Não porque quero, mas porque me acontece já, há algum tempo, tão naturalmente que sinto que estou mesmo doente.
Compreende isso tudo, Leonardo? Está por acaso atônito? Creio que não! Nada lhe comove, não é mesmo? Invejo-o por tudo isso. Como és forte! Perdoa-me, mas essa tua insensibilidade é mesmo de invejar. Tudo pra ti é débil. Por isso o escolhi para ler tudo isso. Passará despercebido e depois, sem peso na consciência, embrulhará o papel e jogará em algum canto. Acenderá depois um cigarro e debochará em voz alta sobre todo esse conteúdo.
Não tem nem como abafar tudo isso no meu íntimo. Eu tento, mas não consigo. Já é visível, percebido, notado por todos que cruzam pelo meu caminho.
O que me sobra?
A cada linha surgida imagino os teus olhos fixos. Imagino-o, mas não o compreendo.
Reencontrei com uma mulher que antigamente me trazia o padecimento por conta de um sentimento forte que por ela sentia. Não se sofre por besteiras.
Escrito por Leonardo Cattoni às 13h26
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...
continuação
Rimos, bebemos ( sabe como gosto de beber, não?! ) e seguimos com recordações desconhecidas daquele passado. Despejo no álcool aflições também, meu caro. Senti-me importante com suas afirmações, com sua memória boa. Ela conservou datas ao meu lado, tudo que eu não consigo. Nem com esforço. Reminiscências de tudo que eu dei e fui. Eu já não a guardava daquele jeito. Os detalhes não me pertencem, Leonardo. Isso irá compreender. O passado és apenas um passado e lembra dele com certo saudosismo, mas não perde seu tempo com tolices, não é mesmo?! Quer viver e para isso o passado fica mesmo pra trás.
Consentirei que esteja mesmo doente e a doença me aflige por demais. Quando disse que não vejo graça em nada é verdade. Gasto tinta aqui porque passará mesmo despercebido em suas mãos tudo isso. Digo as mãos. Não passará delas.
Sinto certo ódio também. Sabe como gosto de meu cão, mas até ele, de tão débil me causa repugnância. Sinto vontade de chutá-lo, de derramar toda raiva nele. Depois caio em si, mas já é tarde. És mais oprimido do que eu. Isso me causa certo conforto. Compreende? Faz isso também, Leonardo? Maltrata os fracos pra se sentir forte? É o que me resta. Faço com prazer tudo isso. Um alude de alívios.
Agora toca a tua preferida no som; Por Una Cabeza. Sinto saudades de ti. De tudo que és. Ah, como gostaria de sê-lo! Essa firmeza me surpreende.
Deixo-te em paz e sigo sozinho, como sempre. Perdoa-me por este. Descarreguei o que ninguém pode carregar.
Fique bem.
Abraços!
Entendo-o perfeitamente, amigo.
Leonardo Cattoni
Escrito por Leonardo Cattoni às 13h25
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Vulgaridade
Não, Teresinha não é para Leonardo. Poderia ser para José, mas ele se apaixonou pela donzela, que era Maria. Mas, também tem outro José na estória, mas ele ninguém quer. Ele está sem mulher, está sem discurso e está sem carinho. Assim nem Teresinha o quer. Mas, tem o João que parece amar a maldita Teresa que não é Teresinha, e se fosse, amaria Raimundo que ama Maria e me deixa sem saber qual é. Maria de Carlos ou de Rita? -Mas e a Rita? -Não quero Rita, não! Se me deixar um violão eu fico mesmo mudo. Têm Bárbara, Angélica, Sílvia, Ana, Beatriz, Renata Maria, Carolina, Cecília, Luísa e tantas que eu não me lembro, assim como o Chico. O que sei é que tem uma que não rima com nada e ainda está sem canção. Pra rimar só mesmo um 'não' que não desejo, e se tirasse o que não desejo seria o desejo corrosivo ou o que me resta. Ela rima com os íntimos, onde não me encontro. E se não corresponder continuará Leonardo na amplidão do lado de fora da canção, onde sou todo rima sem verso, e agora inverso.
Sem par harmonioso só o sobejar derrama aqui. Texto mareado que não oferece nem trocado. Se ler essa vulgaridade saberá que já faz parte do texto sem rima, ritmo, sem nada! E se me chamar novamente de mestre, serei o professor com toda peste, ou o Leonardo que se preze.
Escrito por Leonardo Cattoni às 13h24
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Resgatando a Única Esperança
Foi com Wilhelm Reich que concretizei o que já tinha certeza: que crianças são mesmo enfeites, servem para serem admiradas apenas pelos olhos e pela alma aniquilada dos adultos. Lembro-me até hoje dos narizes pontudos. Dos orifícios nasais peludos. Das pelugens na face. Das competições decretadas tão discretamente. Das mãos grandes que maquinalmente alisava minha cabeça. Fazendo um eclipse no meu crânio com mãos tão grandes. Eu sempre tão presente e ausente ao mesmo tempo. A minha imagem nunca conciliava com todas aquelas construções. Construções íntimas, convenientes e subestimáveis. Até hoje é assim. Nunca queria extrair, roubar atenções. Roubar atenção de um adulto não era coisa boa. Sempre a roubava quando cometia um acidente, e me puniam severamente por isso. Preferia então passar despercebido e fitá-los. Fazer estremecer um barulho de dúvidas, censuras e acusações no meu íntimo. Carregar sozinho, num corpo tão pequeno e frágil, todas as acusações silenciosas e inválidas. Não me sobrava extravasar opiniões e se ameaçasse desprendê-las eu morria afogado de deboches. Eu era sempre tão censurado! Como se eu não fizesse parte daquele mundo convencional e surreal. Eu era uma mancha na sujidade. Estava mais próximo da extinção do que da saudosa mocidade. Fui ejaculado pra ser homem feito. Fui ejaculado pra fazer uma travessia na construção de homens sem piedade. Era bajulado no silêncio, na solidão e queria estar com todos eles nas reuniões, nas comemorações que assassinavam no dia posterior qualquer recordação que nunca existiu.
Foi quando eu me vi sendo felicitado por homens que eu abominava. Foi quando eu servia para dar conselhos aos que me mendigavam. Foi quando eu entrei nas casas dos homens e servia-me de bebidas que antes eram postergadas pelo meu paladar tão infantil e de bom gosto.
Transformei-me neles num piscar de olhos. Adquiri pelugens na face e desfilava, como um servo, para um mundo que nutria da desgraça alheia. E eu buscando uma aprovação qualquer. Continuava na corda-bamba, não podendo vacilar.
E hoje, quando vou buscar meu irmão de três anos na escola eu volto ao passado quando deparo com o teu olhar pelo retrovisor do carro. As músicas vêm à tona quando começo a anunciá-las na tua presença. Cantamos juntos e de repente ele as cessa e me fita. Às vezes me fita com boquiaberta e me sinto um tanto incomodado. "O que será que ele pensa?" Calo-me da mesma forma e corro olhares nos seus, sem pousar naquilo que tanto me incomoda. "Será que me acha também um adulto tolo?" Ele é de uma inteligência fora do comum. Essa tecnologia o avassalou. Não conhece o Homem-Aranha que eu conhecia. Ele conhece o Spider-Man. Manuseia melhor do que eu o controle-remoto do DVD. Ensina-me a fuçar no Celular, me fazendo achar as funções que meu cotidiano não carece. Talvez pra ele sim. Pra ele é muito útil aquilo tudo. Leva-me com mãos dadas aos brinquedos arquitetados pela imaginação fértil que se torna tão fútil pra minha percepção corrompida pelo amadurecimento tão imaturo.
As crianças não podem ser subestimadas! Elas carregam a sutileza que tanto nós, homens, buscamos. Sejamos crianças, mesmo esquecendo a linguagem no passado vizinho. Carreguemos as crianças e cantemos o que não escutamos quando a mais bela canção toca sem nos tocar. Não as deixamos mais observar os orifícios nasais durante tanto tempo. Olhemo-as da mesma forma que olhamos para o sexo oposto e gozemos sem nos tocar. Estudemos o que já esquecemos.
Ser criança é ser imparcial num mundo tão maligno e desigual.
Sejamos, nem se for de vez em quando, e fazemos das crianças parceiros de uma sociedade sem agremiação corrupta.
Escrito por Leonardo Cattoni às 13h23
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http://lr-cattoni.blog.uol.com.br : Endereço velho! Jogado no lixo!
Escrito por Leonardo Cattoni às 14h24
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Pra que Memória?
"A memória é um buraco. Nele tudo se perde. De agradável, de desagradável, de indiferente. Esquecer um aniversário de um parente próximo é chato. Um ligeiro mal-estar, explicações, depois passa."
Concordo com Ivan Lessa. A memória é mesmo um buraco que engoli tudo e deixa o ontem ser sepultado pelo hoje de maneira cruel. O ontem ainda respira, mas ninguém mais o quer. O hoje já é assassinado pelo amanhã que teima em nunca chegar. Jornais da manhã de hoje se transformam em utensílios domésticos na tarde da mesma manhã para luzir janelas. Os de ontem já voltam reciclados com sangues renovados de uma guerra que ainda não foi declarada.
Guardo boas lembranças, e péssimas também. E as péssimas têm mais espaço dentro de mim. Não sei por qual razão. A desgraça que se preza não se interessa por nomes, mas sim por números que vão perdendo valor.
Já disse que números não são pra mim. Datas, por exemplo, não entram na minha memória para serem arquivadas. O buraco consome tudo como se fosse um Tufão; que suga as coisas e as jogam longe, já deformadas, sem valor. Às vezes acho que isso é uma virtude que tenho. Datas são coisas chatas, sofríveis de serem guardadas quando o presente não é valorizado por ninguém. Não é bom mesmo se prender a nada disso.
Estou com mania de esquecer nomes também. Sou um ótimo fisionomista e isso não é bom quando não se guarda nomes. Reconheço o cidadão, mas não lembro o seu nome. Mas saber que ele fez parte de meu passado já me é uma grande vitória.
Tudo vai desvanecendo-se de acordo com o novo que nos consomem, nos empurrando contra ele mesmo, pra nos deixar de herança os seus descendentes que já foram batizados antes mesmo de nascerem. Compram-nos sem nos deixar estipular a quantia. A quantia é a curiosidade. Somos curiosos e queremos enterrar o velho para explorar com veemência o novo. Mas aí tudo se repete. Um ciclo de demência. O mesmo entusiasmo da coisa velha quando era nova se repete na coisa que será assada pelos segundos que correm contra a gente sem pedir licença, atropelando o entusiasmo que tem mais vida que um gato que não sai do quarto. E muita notícia nova vem repetida: "Morreram 35 pessoas no Iraque hoje."
Pra falar a verdade eu nem sei por que estou aqui. Culpa da memória! Nada me entusiasma mais. O computador está virando sucata. E como não sou mais uma criança, deixo de ver graça nas sucatas. Não ligo a televisão já faz dias e não sinto falta. Tudo está perdendo valor pra mim. Talvez tudo seja muito exagerado para o entusiasmo que não tenho. Como explorá-los? Ou seria o contrário? Tudo indiferente? O pior que o "ligeiro mal-estar" se transforma num contínuo entusiasmo de não possuir entusiasmo.
Sim, estou super entusiasmado de não ter mais entusiasmo com nada. O novo parece que chegou de supetão e está me devorando. Estou muito mais leve. Uma pena não ter inventado ainda uma balança para medir o meu interior. Estou susceptível a modernidade que avassala no meu (in)consciente.
Aí eu me pergunto: "Pra que memória?"
"Sobreviver é esquecer. Esquecer um pouquinho, mas esquecer. Num mundo ideal, a política e sua extensão natural, a guerra (parafraseio von Clausewitz), seriam lembrança vaga sem deixar conseqüência mais grave do que alguns livros, fotos, filmes e documentários de televisão. Infelizmente, a vida não é assim."
Escrito por Leonardo Cattoni às 14h20
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Renascimento em Morte
O assoalho da sala rangia alto no silêncio daquela manhã.
Era o filho com os pés nus e sórdidos que vinha ao encontro da mãe com uma caneca na mão.
Papai pediu mais. - disse o menino.
Aquele velho só me causa trabalho! - resmungou a mulher.
Pegou o leite morno de cima do fogão a lenha e derramou com má vontade na caneca com bordas de sangue.
-Leve para o velho, e suma da minha frente, filho ingrato! – Gritou, dando tapas na cabeça do menino.
-Pediu biscoitos também – balbuciou o menino fixando o olhar no chão batido a cimento.
-Ainda se atreve a pedir biscoitos?! Velho desgraçado! Faltam-me os ingredientes. Se tiver fome que beba todo o sangue derramado!
A mulher raquítica lavava as roupas na bacia e preparava no fogão pedaços de côdea com feijão dormido.
“O velho e as camisas com sangue. Que vá para o inferno!” - pensava a mulher.
A mulher lavava as únicas duas peças do vestuário do marido. Olhava para os lados e as aproximavam do nariz. Fechava os olhos e tragava ardentemente com o olfato. Era um ritual que sempre fazia quando lavava as roupas do marido.
Escutava as tosses de longe. Tinha vez que pensava ser a última expiração.
“Não passa de um tísico e ateu o infeliz!” – pensava novamente a mulher.
A morada era pequena e simples. Do interior se via as telhas com orifícios, dando pra ver pedaços do céu.
O menino vivia aos arredores do casebre, brincando com as sucatas da oficina que ficava ao lado.
A mulher lavava, cozinhava, cuidava da casa, do filho e do marido doente.
“Sou heroína, é?! Só porque cozinho, lavo e passo trouxas de roupa? Se eu te matasse eu seria uma heroína que tanto clama.” – a mulher sempre pensava isso.
O marido a chamava de heroína e ria sarcasticamente, no meio das tosses.
Quando são vivia no bordel. Chegava tarde da noite, ébrio. Humilhava a mulher e às vezes até a batia. E dizia sempre não acreditar em Deus.
Mas agora era um doente. Vivia na cama, mas mesmo assim não havia perdido a grosseria.
À noite, quando ela ia dormir, fitava o marido dormindo e deitava as pálpebras, ainda de pé.
-Tome cuidado velho infeliz! A coberta está novamente encharcada de sangue!-disse a mulher já deitada.
-Não exagera velha desgraçada! Não passo de hoje! Verás!-gritou no meio das tosses o marido.
“Que Deus o escute!” - desejou consigo a mulher.
No meio da noite o marido a puxou pelo cabelo, aproximando de seu ouvido, disse com a boca manchada de sangue: “És uma velha desgraçada, porém heroína. Tenho na mão o que guardo no coração. Peço-lhe que me veja partir para se vangloriar.”
Voltou docilmente para o mesmo lugar de antes, onde ficou parado feito estátua.
A mulher fitava o defunto com um olhar tristonho, sem lágrimas.
O velho que era pálido adquiriu cor, a barba pareceu ficar amparada, o cabelo pegou brilho e não havia mais mancha de sangue nos lábios.
A mulher contemplava-o, como quando eram noivos.
Na mão do defunto havia um papel amassado. Pegou com custo o papel do defunto e desdobrou. Em garranchos dizia: “Irei para nascer outra vez. Nascerei em teus sonhos, em tuas lembranças o que nunca fui quando em vida. Amá-la-ei mesmo longe, porque repartirei do teu amor e levarei comigo um pouco dele. Hei de voltar contornando-os para lhe buscar, porque és uma heroína e o SENHOR necessitará da tua ajuda para ‘cevar’ homens feito eu.”
( Leonardo Cattoni- fevereiro/2003 )
Escrito por Leonardo Cattoni às 14h18
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Encarando a Morte com Prazer
Eu sempre achei que o Nascer é o filho caçula da Morte. De fato é! O Nascimento é a Morte em feto. Aliás, o feto já é um morto prematuro. O esperma é o nascimento da Morte. A Morte gera Morte! Nunca a Vida gerou Vida. Eu não estou vivendo, eu estou morrendo a cada instante. Vivo para a morte! A morte é a única que sabe esperar, e me espera deitado na sombra. E agora eu morro mais depressa. Sim, estou morrendo muito mais depressa. Apertaram "FF" do controle, como fazem com o filme vulgar que passa no vídeo.
Engraçado dizer isso, mas sabe o que é? É que agora encontrei a carne podre que exala odor fresco. Sinto a pele ainda quente. Encontrei olhos parecidos a uma jabuticaba que me fitam e ficam roxos em volta quando não deitam. Encontrei o sexo pedindo para morrer. Sinto-me vivo, mesmo sabendo que já sou um morto jurado.
Ah, como a Procópio me faz morrer depressa! Ela me rouba uma semana. Uma semana roubada por ela. Assassino uma semana em um encontro. É como se eu pegasse um calendário e rabiscasse todos os dias da semana e deixasse apenas o sábado e o domingo para comemorar que estou morrendo.
A Mazar nunca me roubou um dia. Talvez me roubasse horas. Mas como disse: eu nasci para morrer. Eu encontrei-a para despedir um dia. Mas será que despeço? Não, ela continua aqui, dentro de mim e será enterrada junto da carne ainda fresca. Com ela eu sentia a morte aproximando lentamente porque sempre a encontrava diariamente e nunca esperava tê-la em meus braços. Tanto aqui quanto acolá. Tanto em mim, quanto nela. O abstrato tem validade longa, mas apodrece na prateleira. Prefiro consumir o que vejo, o que toco, mesmo enfadando.
E agora eu morro mais depressa. Como mudei! Trancafiei-me antes num escuro e achava tudo claro. Forçava a minha visão míope no escuro e achava enxergar alguma coisa. Ver e não tocar é um despotismo oculto que nos ferem muito.
De um lado a ternura da Mazar, do outro o oposto da María. A esposa e a puta. A geradora e a assassina. As duas em uma me fazendo matar ( gozar ).
A María era aquele furacão, que nascia no céu e morria na terra, de tão imenso e belo. Corria em minha direção e me deixava contemplando-a, sem me preocupar de procurar proteção. Hipnotizava-me. Mas nunca me arrastava. Passava distante de mim e eu parado, desejando ser devorado por aquilo tudo.
A Mazar não era nem vento, mas me soprava pro alto. Atropelava-me com sua sutileza.
E agora encontrei as duas numa. A puta e a mãe me envolvendo em dois braços e abraços. O pecado exalando inocência. O bem e o mal me servindo de prazer.
Tudo contrabalanceado. Mas até quando vai ser assim? Não quero saber e nem busco resposta. Sei que um dia não será mais assim, mas até lá eu já terei escrito milhões de textos iguais a esse, mudando apenas os personagens.
Escrito por Leonardo Cattoni às 14h17
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Meu nome é...
"Meu nome é Gal!" fala mesmo por mim. Essa parte, 'gritada' por Gal, é forte.
Escrito por Leonardo Cattoni às 14h16
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